Lee Iacocca era filho de imigrantes italianos e
construíu uma carreira profissional extraordinária, chegando aos cargos de
presidente da Ford Motor Company e da Chryler. Na Ford, seu maior sucesso foi o
lançamento do Mustang que se tornou um extraordinário sucesso de vendas no
mundo inteiro. Na Chrysler, sua maior façanha foi salvá-la da insolvência. Eu
sua autobiografia ele narra:
”Vocês
vão ler a história de um homem que teve sucesso na vida, mas que, ao longo do
caminho, também passou por períodos ruins. Na verdade, quando volto os meus
olhos para os meus trinta e oito anos na indústria automobilística, o dia que aparece mais vivo na lembrança não tem nada a ver com carros novos, promoções ou lucros.
Comecei minha vida como filho de imigrantes e fui construindo meu caminho até chegar à presidência da Ford Motor Company. Quando finalmente consegui, eu me senti nas alturas. Mas então o destino me disse:"Espere. Ainda não acabou. Agora você vai descobrir o que alguém sente quando é chutado do Monte Everest abaixo!"
No dia 13 de julho de 1978, fui demitido. Eu tinha tinha sido presidente da Ford durante oito anos, e era funcionário da Ford há trinta e dois anos. Nunca tinha trabalhado em nenhum outro lugar. E agora, de repente, estava sem emprego. Era como um soco no estômago."
Em sua autobiografia (Livraria Cultura Editora) ele narra a sua trajetória de vida profissional, com os problemas enfrentados e faz uma descrição minuciosa de seu relacionamento com Henry Ford, o tempestuoso proprietário da Ford Motor Company. Leia a seguir.
Distúrbios no Paraíso
Até
o mometo em que me tornei presidente, Henry Ford sempre tinha sido uma figura
remota. Mas agora, nossos escritórios ficavam um ao lado do outro na Casa de
Vidro e nós nos encontrávamos muito, embora em reuniões. Quanto mais eu
conhecia Henry Ford, mais me preocupava com o futuro da empresa – e com o meu
próprio futuro.
A Casa
de Vidro era um palácio, e nela Henry era o rei supremo. Cada vez que ele
entrava no prédio, circulava a notícia: o
rei chegou. Executivos ficavam
zanzando pelos corredores, esperando encontrar-se com ele. Se tivessem sorte,
Mr. Ford poderia até perceber sua presença e dizer alô. Às vezes ele poderia
até dignar-se a falar com eles.
Sempre
que Henry entrava em uma reunião, a
atmosfera mudava repentinamente. Ele tinha poder de vida e morte sobre
todos nós. De repente, ele podia dizer: “Cortem a cabeça dele” – e muitas vezes
o fazia. E mais uma carreira promissora na Ford ia por água abaixo, sem a menor
chance de defesa.
Para
Henry, só importavam as coisas superficiais. Ele era obcecado pelas aparências.
Se um sujeito usasse as roupas certas e usasse as palavras certas de elogio,
Henry ficava impressionado. Mas, quem não tivesse a aparência a seu favor, era
melhor desistir.
Certa
vez Henry me mandou demitir um determinado executivo que, segundo ele, era um
“invertido”.
“Não
seja bobo”, eu disse. “O rapaz e amigo meu. É casado e tem um filho. Sempre
jantamos juntos.”
“Por
que você está falando isso?”, eu disse.
“Olhe
para ele. Usa calças muito apertadas.”
“Henry”, eu disse calmamente, “O que é que as calças dele têm a ver com isso?”
“Ele é
esquisito”, disse Henry. ”Tem um jeito efeminado. Livre-se dele.”
Acabei tendo que demitir um bom amigo. Eu o transferi da Casa de Vidro para o interior do país, odiando o que estava fazendo. Mas, afinal, depois a única alternativa foi mandá-lo embora.
Este
uso arbritário do poder não era apenas um defeito de personalidade. Era algo em
que Henry realmente acreditava.
Bem no
início da minha presidência, Henry me falou sobre sua filosofia administrativa:
“Se um sujeito trabalha para você, não o deixe ficar muito à vontade. Não o
deixe sentir-se dono da situação. Faça sempre o contrário do que ele está
esperando. Mantenha seu pessoal ansioso e inseguro”.
Ora, é
de se esperar por que cargas d´água o presidente da Ford Motor Company, um dos
homens mais poderosos do mundo, se comportava como um pirralho frustrado. O que o tornou tão inseguro?
Talvez
a resposta esteja no fato de Henry Ford nunca ter tido que lutar por nada, em
toda a sua vida. Talvez esta seja a perdição dos garotos ricos, que herdam o
dinheiro que têm. Ficam perambulando pela vida, passeando entre flores,
imaginando o que teria sido deles se não fosse o papai. Os pobres reclamam que
ninguém lhes deu uma chance, mas o garotinho rico nunca sabe se deve a si mesmo
alguma coisa do que realizou. Ninguém jamais lhe diz a verdade. Só lhe dizem o
que ele quer ouvir.
Eu
tinha a impressão de que Henry Ford II, neto do fundador da Ford Motor Company,
tinha passado a vida inteira com medo de pôr
tudo a perder.
Talvez
por isso ele se sentisse ameaçado. Talvez por que ele estivesse enxergando
focos de rebelião no palácio. Se via duas pessoas conversando no corredor,
imediatamente achava que estavam planejando uma conspiração!
Não
quero dar uma de psiquiatra, mas tenho uma teoria a respeito da origem dos
temores de Henry. Quando ele era menino, seu avô sentia-se neuroticamente
ameaçado por sequestradores. Aquelas crianças cresceram cercadas de portões
fechados e guardas de segurança, com medo de todos que não fizessem parte da
família.
E assim
Henry tornou-se um pouco paranóico. Por exemplo, odiava colocar no papel qualquer coisa que fosse. Embora nós dois
tenhamos dirigido a empresa juntos por cerca de oito anos, quase nada nos meus
arquivos daquele tempo tem a sua assinatura. Henry, na verdade, até se gabava
de não manter arquivos. De vez em quando queimava seus papéis.
“ Esta
porcaria só atrapalha”, dizia ele. “O sujeito que tem arquivo está querendo arranjar
problemas. Os papéis acabam caindo na mão de pessoa errada, e você e a empresa
têm que pagar caro.”
Ele
piorou ainda mais depois de Watergate, que o abalou muito. “Está vendo? Eu
tinha razão – veja o que lhe pode acontecer!”
Certa
vez, numa das raras visitas que fez ao meu escritório, ele olhou para meus
vários álbuns de recortes e arquivos. “Você é louco”, disse. “Um dia você vai
ser crucificado por causa de toda essa porcaria.”
Ele
seguia o lema do avô. “A História é uma besteira”. Isto se tornou uma obsessão.
Sua atitude era: destrua tudo o que puder.
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