O texto que segue mostra um episódio real referente a uma eleição que foi interrompida no povoado de Cerro Negro, por ordens superiores, isso na década de trinta, em plena gestão de Getúlio Vargas.
"Não me lembro do ano, nem do mês, mas sei que foi um dia de eleições e o local escolhido para as
votações foi a escola onde meu pai era professor. Foi
preparada uma urna e as pessoas chegavam para votar, mas
tinham grande dificuldade em manipular as cédulas. Meu pai
contava com pessoas do lugar para ajudá-lo na tarefa. Num
canto da sala de aulas foi preparada a cabine, onde foi
colocada a urna. Minha mãe arranjou uma colcha, que foi
pendurada à entrada da mesma, para torná-la indevassável.
Lá dentro era escuro e um lampião foi providenciado para as
pessoas poderem depositar seu voto na urna.
Depois do almoço, quando muita gente ainda estava
na fila para votar, chegou um carro de Lages, com alguns
homens. Eles chamaram meu pai a um canto da sala e
falaram:
– É preciso interromper a votação. São ordens superiores.
– Mas o que faço com a urna e os votos nela depositados?
– Vamos deixá-la dentro da cabine.
A seguir, arrumaram dois sarrafos e os pregaram em
forma de X sobre a colcha e lacraram o local. Depois,
disseram a meu pai para ninguém ali entrar, até que o
Governo liberasse o local. A guarda da urna ficava sob sua
responsabilidade e se o lacre fosse rompido, eles saberiam
que alguém tinha entrado na cabine.
A notícia do cancelamento das eleições atraiu muitas
pessoas para a escola, principalmente os políticos. Todos queriam uma explicação para o fato e os homens do Governo
não estavam dispostos a dar. Embarcaram no carro e foram
embora.
Os políticos da região se dividiam em dois partidos:
governo e oposição. Mas, os assuntos que os separavam não
eram programas de governo, nem os interesses da população,
mas suas disputas pessoais e familiares.
Algumas semanas depois do cancelamento da eleição, minha família dormia tranquilamente, quando fomos
acordados por batidas na janela do quarto de meus pais. O
professor se levantou assustado, abriu a janela e percebeu
três vultos a cavalo. Eles vestiam longas capas de feltro e
grandes chapéus lhes encobriam os rostos.
– O que desejam os senhores, a esta hora da noite? –
falou meu pai, muito preocupado.
– O senhor é o professor Heitor, não é mesmo? –
falou o homem que estava mais próximo.
– Sim, este é o meu nome.
– Professor, precisamos de um pequeno favor de sua
parte.
– Posso saber o tipo de favor?
– Precisamos que o senhor nos deixe ver a urna
guardada aí na sua escola.
– Não posso fazer isso, pois a cabine onde ela está foi
lacrada pelas autoridades.
– Não tem importância. Arrombamos o lacre e depois
colocamos outro. Ninguém vai saber da nossa visita. Nós só
queremos dar uma olhada. É pura curiosidade. Precisamos
apenas saber quem estava ganhando a eleição.
– Infelizmente, não posso atender aos desejos dos senhores. Se ao menos eu pudesse saber quem são os cavalheiros? – disse o professor tremendo de medo.
– No momento, professor, isso não tem a menor
importância. Não queremos usar a força para entrar na escola
e assustar a sua família. Mas nós voltaremos.
Os enigmáticos personagens viraram as rédeas de
suas montarias e se retiraram lentamente do local, enquanto
meus pais ficavam apavorados.
No dia seguinte, o professor procurou logo cedo
algumas pessoas importantes do lugar e elas resolveram
mandar imediatamente um emissário a Lages com uma carta
para as autoridades com o relato da tentativa de invasão da
escola pelos misteriosos cavaleiros. Uma semana depois,
dois policiais chegaram a Cerro Negro e se instalaram num
galpão localizado ao fundo da escola. Enquanto aguardavam
a proteção policial, foram contratados dois homens que
passaram a vigiar a escola durante a noite. Os misteriosos
cavaleiros nunca mais voltaram e ninguém conseguiu
identificá-los. As pessoas achavam que devia ser gente do
lugar.
Depois de algumas semanas, os policiais foram
substituídos por um destacamento do exército, também
instalado no galpão nos fundos da escola, mas, agora, o
motivo não era só a segurança da urna, mas problemas
relativos à segurança nacional, segundo informaram a meu
pai, pois o país vivia em estado de emergência com rebeliões
a explodirem nos diversos Estados contra o governo de
Getúlio Vargas. Esse destacamento do exército, depois ficou
aquartelado num prédio no centro do povoado e trouxe um
pouco de movimentação para a pacata Cerro Negro.
Quanto à eleição interrompida, até hoje não sei se era
federal, estadual ou municipal. Só sei que foi interrompida e,
durante meses, ficou lá no canto da sala de aulas a tal cabine
indevassável, despertando a minha curiosidade infantil. Arrastando-me pelo chão, penetrei no misterioso compartimento, onde só encontrei a urna e um lampião apagado.
Ali não tinha nada importante e eu fiquei decepcionado.
A presença dos soldados do exército no galpão nos
fundos da escola foi para mim uma festa, pois eu vivia à volta
deles a observar suas armas e seus uniformes. Eles improvisaram um acampamento, onde dormiam e comiam. Suas
camas eram formadas por algumas camadas de capim sobre
as quais colocavam cobertores, cobrindo-se com as capas de
feltro. Eles mesmos preparavam a comida do rancho num
fogo de chão, com as panelas penduradas em varas, apoiadas
em duas forquilhas. De resto, eles nada tinham para fazer.
Passavam o dia conversando ou jogando cartas. Quando eu
me aproximava, eles me davam atenção: ensinavam-me a
marchar, a dar meia volta volver, a bater continência, a fazer
apresentação de armas. Isso era feito com um fuzil de
verdade, o qual eu mal conseguia erguer, mas isso me dava
a sensação de participar de um exercício militar. Eu saía dali
muito orgulhoso.
Quando minha mãe soube que punham em minhas
mãos uma arma, foi falar com o sargento responsável e este
lhe assegurou que a arma não tinha munição e falou para
ela não se preocupar, porque tinham todo o cuidado com seu
filho. Mas, desse dia em diante, fui proibido de frequentar a
caserna, além do que, os soldados logo se mudaram para um
casarão do outro lado da vila, onde ficaram aquartelados."
(Texto extraído do livro MENINO TROPEIRO do autor deste blog).
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