"Depois da Páscoa, os alunos do São Luis de Tolosa
retornaram às aulas e começou a rotina de oração, estudo e trabalho. Mas, para
Frei Álvaro, estava pendente o assunto greve da limpeza, que exigia um desfecho,
para que o fato não se repetisse. Na surdina, ele resolveu investigar e chamou
a sua cela um por um os participantes da greve, pois queria os nomes dos
cabeças. Os alunos diziam desconhecer quem insuflara o movimento, até que um
deles, com medo de ser expulso do seminário, resolveu colaborar. Seu nome era
Renato. Depois de algumas perguntas do padre prefeito, ele desembuchou tudo e
explicou que Júlio César achava um absurdo os pais dos alunos pagarem
mensalidades, enquanto eles eram obrigados a lavar chão, varrer corredores,
limpar latrinas. Isso era contra a dignidade dos futuros sacerdotes e Deus
certamente não queria isso. O Prefeito perguntou a Renato se ele participaria
de uma acareação com Júlio César e o rapaz disse que não via problema. O padre prefeito
podia convocá-los, pois ele confirmaria tudo. Frei Álvaro mandou chamar o acusado, para
ouvi-lo na frente de seu delator. Com os olhos fixos no suspeito, falou:
– Está aqui um verdadeiro seminarista, o seu colega
Renato, que faz graves acusações a tua pessoa, meu caro Júlio César. Diz que
insuflaste teus colegas a cometerem um grave ato de indisciplina ou seja, a
paralisação da limpeza da casa, um serviço que, há décadas, é feito por grupos
de alunos,
– Em primeiro lugar, padre prefeito – disse Júlio
César – eu estranho que neste
educandário se estimule a delação entre colegas. Não existe nada pior do que o
chamado dedo duro. Mas se o sr. quiser saber, eu não liderei greve nenhuma.
Apenas participei do movimento, por achá-lo justo.
– Foste tu – retrucou Renato – que reuniste os alunos da
limpeza e falaste que era um absurdo os pais pagarem mensalidades e os filhos
serem obrigados a limpar as latrinas do seminário. Afirmaste que, para esse
serviço, deviam ser contratados empregados.
– Sim – retrucou Júlio – até acho que essa tua
ideia faz sentido.
– A ideia não foi minha. Foi tua.
– Penso que não chegaremos à conclusão alguma – completou Júlio César, voltando-se
para o padre prefeito –, pois o sr. tem a palavra dele contra a minha. Seria
bom ouvir outros alunos para sua decisão.
– Já ouvi quase todos e
eles negam a tua participação. Vou ouvir os depoimentos que faltam e, depois,
voltarei ao assunto. Agora, ambos podem se retirar.
Na saída, Renato procurou
entabular conversa com o colega, para lhe explicar as razões de
sua denúncia, mas Júlio César não lhe deu a mínima atenção. Estava furioso com
a traição praticada pelo colega e em pouco tempo todos os participantes da
greve estavam cientes do acontecido. Falava-se que a decisão a ser tomada pela
direção do educandário seria a expulsão dos líderes, já que mandar todo mundo
para casa ficaria muito complicado.
Numa reunião com seu grupo,
Júlio César enfatizou a necessidade de punição para o traidor, Renato, pois se
deixassem passar o assunto em brancas nuvens, ninguém poderia mais tomar
qualquer atitude contra as injustiças praticadas no seminário.
– Que tipo de punição? – perguntou Nivaldo, um dos
mais exaltados.
– Ainda não sei – respondeu Júlio César –, talvez
uma boa surra, um grande susto, ou algo que o faça pensar duas vezes antes de
cometer uma nova traição.
– Acho que um susto – acrescentou Antônio, outro
participante do grupo – poderia ser uma boa lição, pois surra é violência.
– Que tipo
de susto? – perguntou Nivaldo.
– Renato é metido a valentão. Um dia desses alguém
falava num grupo de alunos que, ao passar pela porta do cemitério, à noite,
quando fazia uma corrida, tinha visto algo estranho, como um vulto se
esgueirando por entre as árvores e Renato se prontificou a liderar uma
expedição à procura do fantasma.
– Acho o assunto bem apropriado – disse Júlio
César. – Vamos espalhar novos boatos a respeito e depois organizar um grupo de
caça-fantasmas, sob a liderança de Renato. Aí, lhe preparamos uma grande surpresa.
Em
seguida, o grupo de Júlio César
iniciou o pla-nejamento de todas as
etapas da operação. Enquanto uns cuidavam do fantasma, outros incentivavam a
organização de uma expedição noturna à procura da aparição e Renato foi um dos
primeiros voluntários a se inscrever. A data escolhida foi um sábado, quando a
vigilância do padre prefeito era menos rigorosa. O grupo, que participaria da
expedição, era formado por Renato e mais três alunos da turma dos rebeldes,
liderados por Júlio César, enquanto Nivaldo se encarregaria de preparar a
surpresa.
Sábado, no final da tarde, se iniciaram os preparativos.
Nivaldo conseguiu alguns lençóis na rouparia e uma corda bem comprida. O
caminho até o cemitério seguia através de uma grande alameda, passava pela
gruta de Lurdes e chegava, então, ao pequeno campo santo, fazia uma curva e retornava
através de uma floresta de imbuias, pinheiros e cedros e findava junto ao campo
de esportes, nos fundos dos prédios do seminário. Era um circuito através do
qual muitos alunos costumavam correr durante a prática de esportes.
Júlio César e Nivaldo escolheram para cenário do espetáculo, uma grande
imbuia, cujos galhos se projetavam sobre a estrada a uma altura de sete
metros. Pegaram um pedaço de madeira, que tinham
trazido, e prenderam os lençóis de maneira a formarem a figura de
um boneco de braços abertos. Fixaram um arame nas extremidades do pedaço de
madeira, na forma de um triângulo, em cujo vértice amarraram uma
das pontas da corda, que foi atirada por sobre um dos galhos da árvore,
enquanto a outra extremidade era trazida até o solo. Fizeram o teste e ficaram
satisfeitos, pois, ao ser puxada a corda, os lençóis presos à madeira se
erguiam e faziam um movimento ondulatório provocado pela brisa da tarde.
– Isso, à noite, fará um grande estrago – disse Júlio César –, mas
devemos trazer uma lanterna para iluminar o fantasma.
Os dois conspiradores arriaram os lençóis e os esconderam enrolados sob
um galho da imbuia. Deixaram a ponta da corda amarrada ao tronco da árvore.
Às 21 horas, quando os alunos do seminário se preparavam para dormir, o
grupo de caça-fantasmas se reuniu no início da alameda, que conduzia à gruta de
Nossa Senhora de Lurdes e, depois, ao cemitério. Vinham armados de porretes e
combinaram o caminho a ser percorrido e a estratégia a seguir, no caso de
encontrarem alguma alma penada, às portas do cemitério.
Enquanto faziam o
percurso, Júlio César relatou um fato ocorrido na França. Um rapaz
ficou preso uma noite numa igreja do interior, quando foi surpreendido pela
entrada de um padre, muito pálido, todo paramentado, que se dirigiu ao altar,
para celebrar missa, pedindo ao jovem que fizesse às vezes
de ajudante. O jovem atendeu e, no final
da missa, o padre agradeceu e falou que tinha voltado do outro mundo para
cumprir uma promessa que fizera em vida, de rezar uma missa pelas almas do
purgatório, promessa que não cumprira. Vinha todas as noites até a igreja para
rezar a missa prometida, mas não podia fazê-lo por falta de um coroinha, que o
ajudasse na cerimônia. Concluíu que, paga a promessa, sua alma poderia
descansar em paz e não teria mais as outras almas a sua volta para lhe cobrar a
dívida. Agradeceu a ajuda do jovem e desapareceu na porta da sacristia, momento
em que a igreja foi tomada por um forte cheiro de incenso.
A história narrada por Júlio César deixou todos impressionados e Renato já
não demonstrava mais tanta valentia. Passaram em frente ao
cemitério e nem se detiveram. Lançaram apenas um olhar furtivo em direção ao
campo santo. A seguir, o caminho dava uma volta, quando os nossos heróis
penetraram na floresta, agora completamente às escuras, pois a fraca
luminosidade noturna ali não penetrava. Ouviam apenas os ruídos de pequenos
animais e pássaros, que fugiam assustados com a chegada dos intrusos.
Todos caminhavam em silêncio, com Júlio César e Renato à frente do
grupo. Júlio César levava uma lanterna e, quando se aproximou do ponto onde se
encontrava Nivaldo, fez a mesma piscar duas vezes, pois era esse o sinal
esperado pelo companheiro escondido atrás da grande árvore. Nesse momento,
Nivaldo começou a puxar a corda, enquanto uma figura diáfana se erguia,
lentamente, iluminada pela lanterna. Júlio César estancou os passos,
repentinamente, e gritou para os companheiros:
– Vejam! Tem algo estranho ali, que sobe em direção à copa das árvores.
Todos pararam
repentinamente e Renato ficou estático, como uma estátua de pedra. Júlio César
dirigiu a luz da lanterna para o rosto do companheiro, onde o terror estava
visivelmente estampado. Preocupado que algo mais grave ocorresse, um dos jovens
gritou para que todos voltassem e se pôs a correr. Renato, como que saído de
um pesadelo, deu meia-volta e começou a
descer a estrada em desabalada carreira, enquanto os companheiros ficavam para
trás. Quando chegou à curva que ia dar no cemitério, ele não se deu conta e
continuou em frente, embrenhando-se no mato, quando escorregou e caíu,
ralando-se nas pedras.
– Socorro! Socorro! – gritava. – Me ajudem, pelo amor de Deus. Estou
ferido, gravemente ferido.
Os companheiros se aproximaram do jovem, literalmente apavorado, e o
trouxeram novamente para a estrada, quando, sob a luz da lanterna, viram o
estrago que o susto causara ao valentão. Tinha braços e pernas lanhados e uma
expressão de pavor estampada no semblante. Com dificuldade, ele falou:
– O couro da minha cabeça está gelado. Estou mal, muito mal. Por favor,
não me deixem... vamos embora desse lugar maldito. Eu vi aquela coisa, que
subia, enquanto olhava para mim. Vocês não viram?...
– Sim, vimos – disseram os outros em coro.
O grupo retornou às pressas pelo caminho antes percorrido, preocupados
que algo de mais grave acontecesse ao companheiro, que era amparado por dois membros
da equipe, enquanto confabulavam, sem que Renato percebesse. Por decisão
unânime, resolveram contar-lhe a verdade, pois o rapaz poderia sofrer um trauma
mental irreversível e aí, as coisas iam ficar pretas para os conspiradores.
Ao chegarem ao seminário, encontraram Nivaldo, que também retornava, e
pediram que ele contasse ao companheiro toda a verdade, pois a aventura poderia
ter desdobramentos desagradáveis. Nivaldo se aproximou de Renato e com um
sorriso disse:
– Então, companheiro,
te borraste todo por causa de um lençol subindo por entre as árvores?
– O
que eu vi foi uma alma penada ...fiquei com o couro cabeludo gelado e ainda me
sinto mal. Não vou conseguir dormir esta noite.
Apesar da confirmação de todo o grupo de que aquilo não passava de uma
brincadeira, Renato estava firme em suas convicções. Ele tinha visto algo
terrível, talvez a alma de alguém enterrado no cemitério ...
– No cemitério –
disse Nivaldo – só tem uns frades velhinhos, que morreram com fama de santidade, e o corpo
de um aluno, que morreu há
vários anos, afogado, quando tomava banho no rio.
– Talvez seja a alma desse aluno – disse Renato. – Ela pode vagar por aí
à procura de descanso. Eu já ouvi falar dele. Soube que, ao mergulhar, fincou a
cabeça na ponta de
um galho de árvore, que estava no fundo
do açude. Foi uma tragédia, que abalou todo o seminário. Acho que devemos pedir
uma missa ao padre prefeito pela alma do nosso colega.
De nada adiantaram as explicações. Chegaram a mostrar ao jovem apavorado
os lençóis usados no episódio, mas ele
dizia que queriam apenas acalmá-lo. Ninguém vira o
que ele viu, pois se encontrava à frente do grupo.
No dia seguinte, o assunto rapidamente se espalhou pelo colégio e
chegou também aos ouvidos do padre prefeito. Todos cercavam Renato à procura de
detalhes da misteriosa aparição que, para muitos, era motivo de chacota, já
para outros, de tristes lembranças, principalmente para aqueles mais antigos,
que tinham participado do acidente no açude, quando morreu afogado um
seminarista do segundo ano. Sua família morava no interior de Santa Catarina e,
face aos problemas de comunicação, os pais só foram informados uma semana
depois do ocorrido, quando o corpo do menino já tinha sido sepultado. A direção
do seminário ficou numa situação embaraçosa, quando teve que explicar à família
do menino o que acontecera, certamente um episódio, fruto de terrível
fatalidade.
Embora o índice de acidentes fosse muito pequeno diante do grande número
de seminaristas, daquela data em diante, os dirigentes do São Luis de Tolosa
passaram a tomar medidas preventivas, para que fatos semelhantes não se
repetissem."
AS TORRES DAS TRÊS VIRTUDES- livro dividido em duas partes. A primeira se passa num seminário, com a narrativa de fatos vivenciados pelo autor em sua juventude, mostrando como se desenvolvia a vida de um jovem, baseada no estudo, no trabalho e na oração, além das atividades esportivas. A segunda parte é vivida pelo herói da narrativa, na fazenda de seu pai, onde impera a corrupção, a violência e a lei da Winchester.
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e a lei da Winchester.

