sexta-feira, 23 de outubro de 2026

UM FATO REAL QUE ACONTECEU NAS DEPENDÊNCIAS DO SEMINÁRIO SÃO LUIS DE TOLOSA - NA DÉCADA DE 40




A seguir, irei publicar o capítulo 10 de meu livro AS TÔRRES DAS TRÊS VIRTUDES, capítulo esse que narra um episódio verídico,  acontecido nas dependências do Seminário São Luis de Tolosa, Rio Negro, Paraná, no ano de 1947. O autor deste blog foi testemunha desse episódio, pois, à época, estudava no São Luis de Tolosa.

"Depois da Páscoa, os alunos do São Luis de Tolosa retornaram às aulas e começou a rotina de oração, estudo e trabalho. Mas, para Frei Álvaro, estava pendente o assunto greve da limpeza, que exigia um desfecho, para que o fato não se repetisse. Na surdina, ele resolveu investigar e chamou a sua cela um por um os participantes da greve, pois queria os nomes dos cabeças. Os alunos diziam desconhecer quem insuflara o movimento, até que um deles, com medo de ser expulso do seminário, resolveu colaborar. Seu nome era Renato. Depois de algumas perguntas do padre prefeito, ele desembuchou tudo e explicou que Júlio César achava um absurdo os pais dos alunos pagarem mensalidades, enquanto eles eram obrigados a lavar chão, varrer corredores, limpar latrinas. Isso era contra a dignidade dos futuros sacerdotes e Deus certamente não queria isso. O Prefeito perguntou a Renato se ele participaria de uma acareação com Júlio César e o rapaz disse que não via problema. O padre prefeito podia convocá-los, pois ele confirmaria tudo. Frei Álvaro mandou chamar o acusado, para ouvi-lo na frente de seu delator. Com os olhos fixos no suspeito, falou:

– Está aqui um verdadeiro seminarista, o seu colega Renato, que faz graves acusações a tua pessoa, meu caro Júlio César. Diz que insuflaste teus colegas a cometerem um grave ato de indisciplina ou seja, a paralisação da limpeza da casa, um serviço que, há décadas, é feito por grupos de alunos, em rodízio. Quero os nomes dos responsáveis para puni-los com o devido rigor.

– Em primeiro lugar, padre prefeito – disse Júlio César –  eu estranho que neste educandário se estimule a delação entre colegas. Não existe nada pior do que o chamado dedo duro. Mas se o sr. quiser saber, eu não liderei greve nenhuma. Apenas participei do movimento, por achá-lo justo.

         – Foste tu – retrucou Renato – que reuniste os alunos da limpeza e falaste que era um absurdo os pais pagarem mensalidades e os filhos serem obrigados a limpar as latrinas do seminário. Afirmaste que, para esse serviço, deviam ser contratados empregados.

          – Sim – retrucou Júlio – até acho que essa tua ideia faz sentido.

– A ideia não foi minha. Foi tua.

– Penso que não  chegaremos à conclusão  alguma – completou Júlio César, voltando-se para o padre prefeito –, pois o sr. tem a palavra dele contra a minha. Seria bom ouvir outros alunos para sua decisão.

– Já ouvi quase todos e eles negam a tua participação. Vou ouvir os depoimentos que faltam e, depois, voltarei ao assunto. Agora, ambos podem se retirar.

Na saída, Renato procurou entabular  conversa  com o colega, para lhe explicar as razões de sua denúncia, mas Júlio César não lhe deu a mínima atenção. Estava furioso com a traição praticada pelo colega e em pouco tempo todos os participantes da greve estavam cientes do acontecido. Falava-se que a decisão a ser tomada pela direção do educandário seria a expulsão dos líderes, já que mandar todo mundo para casa ficaria muito complicado.

Numa reunião com seu grupo, Júlio César enfatizou a necessidade de punição para o traidor, Renato, pois se deixassem passar o assunto em brancas nuvens, ninguém poderia mais tomar qualquer atitude contra as injustiças praticadas no seminário.

– Que tipo de punição? – perguntou Nivaldo, um dos mais exaltados.

– Ainda não sei – respondeu Júlio César –, talvez uma boa surra, um grande susto, ou algo que o faça pensar duas vezes antes de cometer uma nova traição.

– Acho que um susto – acrescentou Antônio, outro participante do grupo – poderia ser uma boa lição, pois surra é violência.

–  Que tipo de susto? – perguntou Nivaldo.

– Renato é metido a valentão. Um dia desses alguém falava num grupo de alunos que, ao passar pela porta do cemitério, à noite, quando fazia uma corrida, tinha visto algo estranho, como um vulto se esgueirando por entre as árvores e Renato se prontificou a liderar uma expedição à procura do fantasma.

– Acho o assunto bem apropriado – disse Júlio César. – Vamos espalhar novos boatos a respeito e depois organizar um grupo de caça-fantasmas, sob a liderança de Renato. Aí, lhe preparamos uma grande surpresa.

         Em seguida, o grupo  de  Júlio  César  iniciou o pla-nejamento de todas as etapas da operação. Enquanto uns cuidavam do fantasma, outros incentivavam a organização de uma expedição noturna à procura da aparição e Renato foi um dos primeiros voluntários a se inscrever. A data escolhida foi um  sábado,  quando  a vigilância do padre prefeito era menos rigorosa. O grupo, que participaria da expedição, era formado por Renato e mais três alunos da turma dos rebeldes, liderados por Júlio César, enquanto Nivaldo se encarregaria de preparar a surpresa.

Sábado, no final da tarde, se iniciaram os preparativos. Nivaldo conseguiu alguns lençóis na rouparia e uma corda bem comprida. O caminho até o cemitério seguia através de uma grande alameda, passava pela gruta de Lurdes e chegava, então, ao pequeno campo santo, fazia uma curva e retornava através de uma floresta de imbuias, pinheiros e cedros e findava junto ao campo de esportes, nos fundos dos prédios do seminário. Era um circuito através do qual muitos alunos costumavam correr durante a prática de esportes. 

Júlio César e Nivaldo escolheram para cenário do espetáculo, uma grande imbuia, cujos galhos se projetavam sobre a estrada a uma altura de sete metros. Pegaram  um  pedaço de  madeira,  que  tinham trazido, e  prenderam  os lençóis de maneira a formarem a figura de um boneco de braços abertos. Fixaram um arame nas extremidades do pedaço  de  madeira,  na forma  de um triângulo, em cujo vértice amarraram uma das pontas da corda, que foi atirada por sobre um dos galhos da árvore, enquanto a outra extremidade era trazida até o solo. Fizeram o teste e ficaram satisfeitos, pois, ao ser puxada a corda, os lençóis presos à madeira se erguiam e faziam um movimento ondulatório provocado pela brisa da tarde.

– Isso, à noite, fará um grande estrago – disse Júlio César –, mas devemos trazer uma lanterna para iluminar o fantasma.

Os dois conspiradores arriaram os lençóis e os esconderam enrolados sob um galho da imbuia. Deixaram a ponta da corda amarrada ao tronco da árvore.

Às 21 horas, quando os alunos do seminário se preparavam para dormir, o grupo de caça-fantasmas se reuniu no início da alameda, que conduzia à gruta de Nossa Senhora de Lurdes e, depois, ao cemitério. Vinham armados de porretes e combinaram o caminho a ser percorrido e a estratégia a seguir, no caso de encontrarem alguma alma penada, às portas do cemitério.

Enquanto faziam o percurso, Júlio César relatou um fato ocorrido na França. Um rapaz ficou preso uma noite numa igreja do interior, quando foi surpreendido pela entrada de um padre, muito pálido, todo paramentado, que se dirigiu ao altar, para celebrar missa, pedindo ao jovem que  fizesse  às  vezes  de ajudante. O jovem atendeu e, no final da missa, o padre agradeceu e falou que tinha voltado do outro mundo para cumprir uma promessa que fizera em vida, de rezar uma missa pelas almas do purgatório, promessa que não cumprira. Vinha todas as noites até a igreja para rezar a missa prometida, mas não podia fazê-lo por falta de um coroinha, que o ajudasse na cerimônia. Concluíu que, paga a promessa, sua alma poderia descansar em paz e não teria mais as outras almas a sua volta para lhe cobrar a dívida. Agradeceu a ajuda do jovem e desapareceu na porta da sacristia, momento em que a igreja foi tomada por um forte cheiro de incenso.

A história narrada por Júlio César deixou todos impressionados e Renato  já  não  demonstrava  mais tanta valentia. Passaram em frente ao cemitério e nem se detiveram. Lançaram apenas um olhar furtivo em direção ao campo santo. A seguir, o caminho dava uma volta, quando os nossos heróis penetraram na floresta, agora completamente às escuras, pois a fraca luminosidade noturna ali não penetrava. Ouviam apenas os ruídos de pequenos animais e pássaros, que fugiam assustados com a chegada dos intrusos.

Todos caminhavam em silêncio, com Júlio César e Renato à frente do grupo. Júlio César levava uma lanterna e, quando se aproximou do ponto onde se encontrava Nivaldo, fez a mesma piscar duas vezes, pois era esse o sinal esperado pelo companheiro escondido atrás da grande árvore. Nesse momento, Nivaldo começou a puxar a corda, enquanto uma figura diáfana se erguia, lentamente, iluminada pela lanterna. Júlio César estancou os passos, repentinamente, e gritou para os companheiros:

– Vejam! Tem algo estranho ali, que sobe em direção à copa das árvores.

Todos pararam repentinamente e Renato ficou estático, como uma estátua de pedra. Júlio César dirigiu a luz da lanterna para o rosto do companheiro, onde o terror estava visivelmente estampado. Preocupado que algo mais grave ocorresse, um dos jovens gritou para que todos voltassem e se pôs a correr. Renato, como que  saído  de  um pesadelo, deu meia-volta e começou a descer a estrada em desabalada carreira, enquanto os companheiros ficavam para trás. Quando chegou à curva que ia dar no cemitério, ele não se deu conta e continuou em frente, embrenhando-se no mato, quando escorregou e caíu, ralando-se nas pedras.

– Socorro! Socorro! – gritava. – Me ajudem, pelo amor de Deus. Estou ferido, gravemente ferido.

Os companheiros se aproximaram do jovem, literalmente apavorado, e o trouxeram novamente para a estrada, quando, sob a luz da lanterna, viram o estrago que o susto causara ao valentão. Tinha braços e pernas lanhados e uma expressão de pavor estampada no semblante. Com dificuldade, ele falou:

– O couro da minha cabeça está gelado. Estou mal, muito mal. Por favor, não me deixem... vamos embora desse lugar maldito. Eu vi aquela coisa, que subia, enquanto olhava para mim. Vocês não viram?...

– Sim, vimos – disseram os outros em coro.

O grupo retornou às pressas pelo caminho antes percorrido, preocupados que algo de mais grave acontecesse ao companheiro, que era amparado por dois membros da equipe, enquanto confabulavam, sem que Renato percebesse. Por decisão unânime, resolveram contar-lhe a verdade, pois o rapaz poderia sofrer um trauma mental irreversível e aí, as coisas iam ficar pretas para os conspiradores.

Ao chegarem ao seminário, encontraram Nivaldo, que também retornava, e pediram que ele contasse ao companheiro toda a verdade, pois a aventura poderia ter desdobramentos desagradáveis. Nivaldo se aproximou de Renato e com um sorriso disse:

– Então, companheiro, te borraste todo por causa de um lençol subindo por entre as árvores?

– O que eu vi foi uma alma penada ...fiquei com o couro cabeludo gelado e ainda me sinto mal. Não vou conseguir dormir esta noite.

Apesar da confirmação de todo o grupo de que aquilo não passava de uma brincadeira, Renato estava firme em suas convicções. Ele tinha visto algo terrível, talvez a alma de alguém enterrado no cemitério ...

– No cemitério – disse Nivaldo – só tem uns frades velhinhos, que morreram  com fama  de   santidade,   e o  corpo de um aluno, que  morreu há vários anos, afogado, quando tomava banho no rio.

– Talvez seja a alma desse aluno – disse Renato. – Ela pode vagar por aí à procura de descanso. Eu já ouvi falar dele. Soube que, ao mergulhar, fincou a cabeça  na  ponta  de um  galho de árvore, que estava no fundo do açude. Foi uma tragédia, que abalou todo o seminário. Acho que devemos pedir uma missa ao padre prefeito pela alma do nosso colega.

De nada adiantaram as explicações. Chegaram a mostrar ao jovem apavorado os  lençóis  usados   no episódio,  mas   ele  dizia  que queriam apenas acalmá-lo. Ninguém vira o que ele viu, pois se encontrava à frente do grupo.

No dia seguinte, o assunto rapidamente se espalhou pelo colégio e chegou também aos ouvidos do padre prefeito. Todos cercavam Renato à procura de detalhes da misteriosa aparição que, para muitos, era motivo de chacota, já para outros, de tristes lembranças, principalmente para aqueles mais antigos, que tinham participado do acidente no açude, quando morreu afogado um seminarista do segundo ano. Sua família morava no interior de Santa Catarina e, face aos problemas de comunicação, os pais só foram informados uma semana depois do ocorrido, quando o corpo do menino já tinha sido sepultado. A direção do seminário ficou numa situação embaraçosa, quando teve que explicar à família do menino o que acontecera, certamente um episódio, fruto de terrível fatalidade.

Embora o índice de acidentes fosse muito pequeno diante do grande número de seminaristas, daquela data em diante, os dirigentes do São Luis de Tolosa passaram a tomar medidas preventivas, para que fatos semelhantes não se repetissem."

 ______________________________________




AS TORRES DAS TRÊS VIRTUDES- livro dividido em duas partes. A primeira se passa num seminário, com a narrativa de fatos vivenciados pelo autor em sua juventude, mostrando como se desenvolvia a vida de um jovem, baseada no estudo, no trabalho e na oração, além das atividades esportivas. A segunda parte é vivida pelo herói da narrativa, na fazenda de seu pai, onde impera a corrupção, a violência e a lei da Winchester. 

 Para comprar o livro, acesse: vsom01@yahoo.com.br e receba o texto em seu computador (e-boock) pelo preço de CR 35,00. Indique o e-mail para onde deve ser enviado cada livro.


















e a lei da Winchester. 

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

A CURA MILAGROSA DE UM MENINO, GRAVEMENTE ENFERMO, ACOMETIDO PELA DOENÇA DA DIFTERIA @





O texto publicado, a seguir, foi extraído do livro MENINO TROPEIRO, de autoria de R.H Souza e narra um episódio real, acontecido em sua família, para o qual, até hoje, ele não encontra explicação. Teria sido um milagre?

"Eu nasci na vila de Vigia em 31 de maio de 1931. Até hoje não sei se 31 é o meu número de sorte. Antes de completar um ano de idade, fui acometido por uma grave enfermidade: o crupe ou difteria. Na localidade não tinha médico nem hospital. Segundo relato de minha mãe, houve uma noite em que chegaram a colocar a vela na minha mão, prática comum à época para iluminar a passagem do moribundo. Mas, nesse instante, alguém bateu na porta da casa. Meu pai foi atender e se deparou com um desconhecido, que lhe perguntou:

– Tem aqui um menino muito doente, não é, professor?

– Tem sim. É meu filho. Ele está muito mal. Mas posso saber quem é o visitante?

– O meu nome não importa. Eu só queria ver o menino e ver se posso fazer alguma coisa por ele.

Meu pai introduziu o estranho personagem nos aposentos onde eu agonizava. Ele colocou a mão sobre minha cabeça e ficou uns instantes em silêncio, enquanto era observado por meus pais. Depois, levou a mão ao bolso do casaco de onde tirou um frasco com um líquido de cor amarelada. Falou para minha mãe:

– Dê ao menino uma colher deste remédio, agora, e depois repita a dose de duas em duas horas.

O misterioso visitante acabou de falar e se retirou sem uma palavra. Minha mãe, como não tinha nada a perder e,  diante do quadro verdadeiramente caótico em que eu me encontrava, com o peito arfando e muita dificuldade para respirar, introduziu em minha boca o líquido amarelado, que tive grande dificuldade em engolir. A seguir, ela e meu pai ficaram ao lado do berço, aguardando o desfecho da crise. Duas horas depois, recebi a segunda dose do remédio e, assim por diante, até o dia clarear. Quando amanheceu, perceberam que o pequeno doente demonstrava melhoras e dormia tranquilo. Voltando-se para meu pai, minha mãe falou:

– Quem seria o homem que nos visitou, Heitor?

– Não tenho ideia. Ele nem me disse o nome.

– Pois eu sei quem ele é.

– Como sabes?

– Deus ouviu as minhas rezas e nos mandou um anjo para curar o nosso filho. Veja como ele está. Respira com facilidade. Graças a Deus se recupe

No dia seguinte, os vizinhos tomaram conhecimento do inusitado episódio e ninguém tinha informação sobre o misterioso personagem que visitara minha família naquela noite."

@ A difteria é uma doença bacteriana grave, aguda e contagiosa, causada pela bactéria Corynebacterium diphtheriae. Ela atinge principalmente as vias respiratórias superiores (como amígdalas, faringe e laringe) e a pele. A principal característica da doença é a formação de uma membrana ou placa espessa e branco-acinzentada na garganta, que pode obstruir as vias aéreas e provocar insuficiência respiratória ou asfixia. A gravidade também decorre de uma toxina liberada pela bactéria, que pode se espalhar pelo sangue e lesionar órgãos vitais. 

_______________________________



 MENINO TROPEIRO - é a biografia da infância do autor, filho de um professor primário, que dava aulas em povoados do Planalto Catarinense. Aulas para 4 turmas, simultaneamente, com a maioria dos alunos vindos das propriedades agrícolas. Eles não tinham condução, como os alunos atuais. Vinham a pé, na escola não havia refeições e, à tarde voltavam para casa e pegavam uma enxada para ajudar os pais no trabalho das lavouras. Eram outros tempos. 

Para comprar o livro, acesse: vsom01@yahoo.com.br e receba o texto em seu computador (e-boock) pelo preço de CR 35,00. Indique o e-mail para onde deve ser enviado cada livro.





segunda-feira, 5 de outubro de 2026

MENINO DE 12 ANOS, EM NOITE DE CHUVA, TEVE QUE CAMINHAR 5 QUILÔMETROS PARA BUSCAR UM MÉDICO PARA SALVAR SUA MÃE

 


O trecho que segue faz parte do livro MENINO TROPEIRO, do autor deste blog, e mostra como era a vida no interior, naqueles velhos tempos, na década de trinta, no planalto catarinense. Para comprar o livro, agora em promoção, veja detalhes no final desta postagem.

 "E aconteceu novamente o inevitável. Minha mãe ficou grávida de mais um filho. Era o de número cinco, excluindo aquele que ela perdera dois anos antes. Desta vez, a gravidez era em condições  difíceis,  pois  ela  ficava a  maior parte do dia sozinha em casa com os dois filhos pequenos, enquanto minha irmã e eu íamos para a escola com meu pai. João, o empregado, fora embora,  porque  também  precisava ajudar sua família nos trabalhos da lavoura. Se ela tivesse um problema repentino, quem iria socorrê-la? Nos dias em que não estava bem, eu faltava a aula para ficar em casa de plantão. Meu pai passou a considerar que a mudança para o sítio tinha trazido mais males do que benefícios. Agora, sem a ajuda de João, não tinha mais ninguém para trabalhar na lavoura e o mato tomava conta das plantações.

No dia 7 de maio do ano de 1942, minha mãe teve uma menina, a quem deu o nome de Maria Aparecida, em homenagem à padroeira do Brasil, de quem era muito devota. Quem realizou o parto foi a moradora de um sítio, distante uns dois quilômetros de nossa casa. Nesse dia, eu fiquei de plantão, com um cavalo preparado para chamar a parteira. Quando minha mãe sentiu as primeiras dores, parti a galope atrás da boa senhora e, duas horas depois, ela já estava a postos, momento em que meu pai também chegava da escola. Graças a Deus, tudo correu bem.

Mas, depois do parto, dona Lina não era mais a mesma pessoa. Tinha problemas intestinais, passava por crises graves de saúde. Uma noite, ela estava tão mal que meu pai me chamou e perguntou se eu tinha coragem de ir até Anita Garibaldi e chamar o dr. De Negri.

 Eu disse que sim e me pus logo a caminho. Estava muito escuro e caía uma chuva fininha, além do frio, pois era o mês de julho, em pleno inverno. Pelo caminho eu pensava se o médico iria atender ao chamado, depois daquela confusão na casa de Silvério entre minha mãe e d. Talita. As famílias não se falavam há muito tempo.

Ao chegar em Anita Garibaldi, fui até a casa do médico, mas ele não estava. D. Talita, sua mulher, me atendeu  bem,  mas  informou  que  ele tinha ido visitar um doente e ainda não retornara, mas era esperado em casa naquela noite. Fiquei desesperado e voltei para casa onde o estado de saúde de minha mãe se agravara.

Depois de algum tempo de hesitação, meu pai resolveu retornar comigo à casa do doutor e, quando lá chegamos, graças a Deus ele ali se encontrava. Imediatamente, pegou sua maleta e nos acompanhou pelos caminhos tortuosos até nossa casa. Numa descida, cujo chão estava escorregadio, ele tropeçou num pequeno arbusto e caiu. Embora, todo arranhado, disse não ter acontecido nada e avançamos rapidamente. Ao chegarmos em casa, encontramos minha mãe ainda com muitas dores na barriga. O médico a examinou e depois lhe deu uma injeção para dormir por um longo período. Já era dia claro e dr. Giovanni continuava de plantão, pois estava preocupado com o estado da paciente. Reunido com meu pai na pequena sala, ele falou:

– Professor, o estado de saúde de sua mulher é muito preocupante. É melhor todos voltarem a residir no povoado, pois aqui nesses matos podemos fazer muito pouco  por ela.

– Eu já tinha pensado nisso, mas a Lina é teimosa e não quer abandonar suas plantações.

– É melhor ficar sem as plantações do que sem a vida. Aqui, fica difícil lhe dar assistência médica. O sr. tem o exemplo de hoje.

– Vou falar com o Silvério, pois o casarão onde morávamos lá na vila, continua vazio. Vou lhe pedir permissão para voltarmos, imediatamente, para lá.

– Faça isso, professor. É para o bem de toda a família, pode acreditar.

Apesar do problema com a vaca, Silvério não  fez nenhuma objeção e, algumas semanas depois, a família voltava ao ninho antigo. Era a quarta mudança que fazíamos no pequeno povoado naquele esquema de vida de ciganos. Deixamos para trás a casa do sítio, fria e úmida e voltamos para o casarão bem confortável, com todos os cômodos, com forro de madeira e as paredes calafetadas com ripas pregadas sobre a junção das tábuas, para impedir a entrada do vento e do frio. A grande vantagem, agora, é que estávamos a duzentos metros da escola e dona Lina contava com a assistência de todos a qualquer hora.

A rotina voltou a tomar conta do povoado. A minha única saudade do sítio era a abundância de lenha. Bastava sair da casa que, por todos os lados, havia galhos secos em profusão. No sítio também havia fartura de pinhão, mas era preciso disputá-los com os porcos, soltos no mato pelos criadores, no inverno, quando havia abundância do fruto. Durante esse período, o vento debulhava as pinhas e os suínos, espertos, dormiam debaixo dos pinheiros e quando o dia clareava, o alimento estava ao alcance de seus dentes. Quem chegasse mais tarde, ficava a ver navios."

 _________________________________________

        


 MENINO TROPEIRO - é a biografia da infância do autor, filho de um professor primário, que dava aulas em povoados do Planalto Catarinense. Aulas para 4 turmas, simultaneamente, com a maioria dos alunos vindos das propriedades agrícolas. Eles não tinham condução, como os alunos atuais. Vinham a pé, na escola não havia refeições e, à tarde voltavam para casa e pegavam uma enxada para ajudar os pais no trabalho das lavouras. Eram outros tempos. 

Para comprar o livro, acesse: vsom01@yahoo.com.br e receba o texto em seu computador (e-boock) pelo preço de CR 35,00. Indique o e-mail para onde deve ser enviado cada livro.

 








segunda-feira, 21 de setembro de 2026

VENDER, UMA ATIVIDADE TÃO ANTIGA QUANTO O HOMEM





A atividade de vendas é tão antiga quanto o homem. Ao se organizar em sociedade, o homem  tinha que trocar aquilo que produzia por outros produtos de que precisava. Esse sistema, denominado escambo, era uma atividade de vendas, durante a qual os envolvidos desenvolviam suas habilidades para defender as qualidades de seus produtos.

Certamente que o progresso de muitos povos foi o resultado de grandes negócios efetuados no decurso de sua história. Os fenícios, por exemplo, eram grandes mercadores e levaram seus produtos aos portos do Mediterrâneo. Chegaram à costa atlântica da Espanha e fizeram a viagem de circum-navegação da África, por volta do ano 600 aC. Eles vendiam pratos e vasos de ouro, prata e bronze, garrafas de marfim, cerâmica fina, perfumes, unguentos, lãs, tecidos de linho e também armas. A expansão do império romano certamente contribuiu para o desenvolvimento de comércio em larga escala.



A primeira venda de que se tem notícia aconteceu ainda no paraíso, quando a serpente vendeu a Adão e Eva a famosa maçã, fruto da árvore proibida, usando falsos argumentos. Eles comeram a maça e só então perceberam que foram enganados por aquele vendedor ardiloso e se deram mal. Essa venda é hoje chamada de venda em sentido lato e não venda em sentido estrito, que é a venda de produtos. Na venda em sentido lato não se vendem produtos, mas ideias, conceitos ou coisa que o valha. É uma operação na qual não entra dinheiro. Foi o que aconteceu no paraíso.




Outra venda  desastrada,  relatada  na  Bíblia,  foi feita por Esaú, que vendeu ao irmão Jacó o seu direito à primogenitura, em troca  de  um  prato  de  lentilhas. O comprador, Jacó, foi muito esperto, enquanto Esaú, obsecado pela fome, abriu mão de seus direitos à herança do pai, Isaac. Mais tarde, o próprio Jacó foi vítima de outro vendedor esperto, Labão, que lhe vendeu a filha Raquel em troca de servidão de sete anos e depois mais sete. E os filhos de Jacó não tiveram dúvida e venderam como escravo o irmão José, conhecido como José do Egito, que se destacou na corte do Faraó.



Também temos na Bíblia a história daquele outro vendedor. Judas Iscariotes, que vendeu seu Mestre por 30 moedas de prata e mudou o curso da história, não chegando mesmo a usufruir do pagamento.


No início do século XVI, conhecemos um negócio que deu muito o que falar, quando o Leão X instituiu a venda das indulgências para levantar fundos para a construção da basílica de São Pedro. Segundo os vendedores, a cada pagamento das indulgências, o comprador tinha automaticamente seus pecados perdoados. Esses vendedores percorriam a Europa de Norte a Sul, oferecendo sua mercadoria e arrecadando milhões para as obras da basílica de São Pedro, agora sob o comando de outro papa,  Júlio II. Tal procedimento provocou a ira de Lutero, estabelecendo-se um grande cisma religioso e o surgimento do protestantismo, com graves consequências políticas e religiosas para todo o continente europeu, com a diminuição do poderio papal que, pela primeira vez, sofria contestação.



Nas sociedades primitivas, quando o número de produtos a serem trocados ainda era limitado, as trocas se realizavam  por  escambo, isto é, os produtos eram diretamente comercializados pelo povo em geral. Trocavam-se peles por cerâmica, sal por conchas, tecidos por animais. Com o aumento de produtores e de produtos, para facilitar as transações, começaram a ser criadas as primeiras moedas, como por exemplo, o sal, do qual se derivou a palavra salário. Também o gado era usado como moeda. Gado em latim é pecus, de onde veio a palavras pecúnia que significa dinheiro. Nas  sociedades mais   avançadas   começaram  a  circular  as moedas feitas de metais, como cobre, prata e ouro. E o dinheiro se tornou tão importante que reis e monarcas mandaram gravar a sua efígie numa de suas faces.



Na Idade Média surgiram os artesãos que produziam mercadorias sob encomenda e, em troca, recebiam um pagamento em dinheiro, geralmente, moedas de ouro. Na produção artesanal, cada produto atendia às exigências do comprador que, de maneira geral, acompanhava as etapas de fabricação do mesmo, adequando-os às suas exigências pessoais. Eram roupas, calçados, móveis, armas, carruagens, jóias e até palácios e castelos.



No século XIX, assistimos ao início da era industrial, mudando os padrões comerciais em todo o mundo, criando uma classe operária responsável pela produção de produtos em larga escala, além da concentração de grandes capitais no chamado mundo capitalista. Com o advento da máquina, foi iniciada a produção em série, com a padronização dos produtos. O crescimento da produção aumentava também a competição, com centenas de empresas fabricando uma gama variada de produtos no mundo inteiro, produtos esses com características impostas pelo próprio fabricante e não mais pelo comprador, como na era artesanal, fato que alterou profundamente as atividades do mercado, pois logo se percebeu que não adiantava fabricar produtos se as pessoas não gostassem deles e não quisessem comprá-los. 






Foi assim que surgiu nos países industrializados uma nova disciplina denominada marketing, termo adotado nos diversos idiomas. O marketing nasceu com o objetivo de estabelecer uma ponte entre fabricante e consumidor, facilitando a atividade de vendas. Ele passou a funcionar como uma verdadeira bússola que orienta a empresa por entre os recifes que pontilham ao longo do mercado. Sem essa bússola, muitos navegam sem rumo, em mar encapelado, e outros podem mesmo sofrer a desventura do naufrágio.



________________________________



                                  


            LIVROS DO AUTOR DESTE BLOG PARA SEUS                                           MOMENTOS  DE LAZER. 

                                

          

O FILHO DE ANITA - Uma história que beira o fantástico. Um rico fazendeiro que incorpora o Malvado, desenvolve um intenso trabalho para seduzir uma bela jovem, Anita, criando situações inusitadas. A história reúne frades, médicos, vaqueiros, mulheres inteligentes e o povo simples dos vilarejos. E tem um final surpreendente. Só lendo, para crer.

VENDER É PRECISO- Um livro para treinamento de vendedores e empresários, mostrando as melhores técnicas de vendas, desenvolvidas no país e no exterior. Agora, em segunda edição. Um professor de vendas sobre Vender é Preciso, disse o seguinte:” Este livro deveria estar no porta-luvas do carro de todo vendedor, pois também Ler é Preciso”.

 OPERAÇÃO KAABA - Uma história extraordinária, que se passa no ano de 2035, num conflito internacional de graves consequências e o sequestro de um papa por terroristas islâmicos. O livro fala do surgimento de uma nova ordem religiosa - os Novos Templários, em cujos votos está, agora incluído, o voto de Preservação, com o objetivo de minorar os graves problemas ambientais que surgirão no futuro. A história envolve terroristas, jornalistas, políticos, fanáticos religiosos, personagens do clero e a figura de um papa - Pedro Paulo I, além de uma bela jovem que está presente em toda a trama.

 AS TORRES DAS TRÊS VIRTUDES- livro dividido em duas partes. A primeira se passa num seminário, com a narrativa de fatos vivenciados pelo autor em sua juventude, mostrando como se desenvolvia a vida de um jovem, baseada no estudo, no trabalho e na oração, além das atividades esportivas. A segunda parte é vivida pelo herói da narrativa, na fazenda de seu pai, onde impera a corrupção, a violência e a lei da Winchester. 

 MENINO TROPEIRO - é a biografia da infância do autor, filho de um professor primário, que dava aulas em povoados do Planalto Catarinense. Aulas para 4 turmas, simultaneamente, com a maioria dos alunos vindos das propriedades agrícolas. Eles não tinham condução, como os alunos atuais. Vinham a pé, na escola não havia refeições e, à tarde voltavam para casa e pegavam uma enxada para ajudar os pais no trabalho das lavouras. Eram outros tempos. 

EXPRESSÕES E PROVÉRBIOS LATINOS -  São mais de 400 verbetes, com tradução, pronúncia e exemplos de uso. É um material adequados para advogados, pois a jurisprudência faz uso constante de terminologia latina, face a importância do direito romano para todos os povos.. Mas o livro também é importante para a cultura em geral, pois traz também um texto completo sobre a história de Roma.

 **************************************************

Para comprar os livros, acesse: vsom01@yahoo.com.br e receba o texto em seu computador (e-boock) pelo preço de CR 35,00. Indique o e-mail para onde deve ser enviado cada livro.