sexta-feira, 7 de novembro de 2014

O MÚSICO QUE TRABALHOU DURANTE TRÊS LONGOS DIAS E NÃO RECEBEU O DEVIDO PAGAMENTO. QUAL FOI A SUA VINGANÇA?




 Na minha infância, final da década de trinta, minha família morava num povoado situado no interior de Santa Catarina, de nome Anita Garibaldi, onde meu pai exercia a profissão de professor primário. Em meu livro, Menino Tropeiro, narro alguns episódios curiosos que aconteceram naquela localidade. Aqui, destaco um deles, com o título: A Vingança do Sanfoneiro Fabrício, que publico,  a seguir:

"No dia 4 de dezembro se comemorava a festa da padroeira do lugar, Santa Bárbara. Os líderes locais se reuniram para escolher o festeiro, que era o responsável pela organização da efeméride. Naquele ano de 1940, dr. Giovanni e a mulher foram os escolhidos e o casal se propôs fazer uma festa inesquecível. Nossa família foi convocada para colaborar. Meu pai ficou encarregado do bar do salão de festas e minha mãe do restaurante, a ser instalado num grande barracão numa área próxima. As novidades agradaram aos moradores do lugar.

O escolhido para animar os bailes foi novamente o famoso sanfoneiro Fabrício, o garanhão da fronteira. Ele estava no Rio Grande do Sul, tocando numa festa, quando foi alcançado por um emissário de Anita Garibaldi. Prontamente, atendeu ao chamado de meu pai, mas, desta vez, não ficou hospedado em nossa casa, mas no pequeno hotel do lugar, pois a família estava toda envolvida com a festividade e não tinha como atendê-lo.

Fabrício animou os bailes durante os três dias. Eles tinham início na parte da tarde e entravam pela noite. Só que, no último dia dos festejos, na hora de acertar o pagamento, houve um complicador. Todos os pagamentos eram feitos pelo velho Granzotto, uma espécie de prefeito do lugar. Ele era um homem de poucas falas e bastante ranzinza. Ao lhe ser apresentada a conta do sanfoneiro, ele disse que não pagava, pois  achava  o preço  muito  alto. Meu pai que estava presente, ficou numa situação constrangedora, pois fora ele quem mandara chamar Fabrício, a pedido dos organizadores da festa. Tentou argumentar, mas o homem permaneceu inflexível.
– Só pago – disse ele – se houver um bom desconto.
– O meu preço é este – argumentou Fabrício. – É o que eu cobro em todos os lugares.
– Mas este preço eu não pago – concluiu o velho Granzotto.
Fabrício se retirou e resolveu não insistir, mas preparou uma revanche. Ele tinha ainda que tocar no baile de encerramento e resolveu fazê-lo para não decepcionar sua plateia. Subiu no estrado que ficava num plano elevado no salão e executou as melhores peças de seu repertório. A notícia do calote já correra entre os participantes da festa e todos estavam revoltados. Já no final do baile, Fabrício parou de tocar e, dirigindo-se ao público, falou:
– Antes de qualquer coisa, quero agradecer os aplausos e o entusiasmo de todos vocês. Agradeço a acolhida que tive do povo de Anita Garibaldi. Para encerrar essa festança de Santa Bárbara, compus uma modinha que dedico ao povo do lugar.
Soltou os primeiros sons de seu famoso acordeão e, com voz forte, cantou por seguidas vezes o seguinte:

Quando eu tava no Rio Grande
Me mandaram me chamar
Para Anita Garibaldi
Uma festa eu vim tocar
Depois de acabada a festa
Não quiseram me pagar
E não foi outra pessoa
Foi o chefe do lugar.

Assim, terminou, melancolicamente, a festa de Santa Bárbara. O bom senso das pessoas dizia que a atitude tomada pelo  chefão do lugar fora injusta e que  o sanfoneiro Fabrício não merecia aquele desaforo, mas a modinha dele ficou famosa e todos a divulgaram pelo povoado e cercanias.

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quinta-feira, 18 de setembro de 2014

D. JOÃO VI E SUAS ESQUISITICES







O livro 1808 de Laurentino Gomes (Editora Planeta) traz na capa o seguinte texto: “Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão Bonaparte e mudaram a História de Portugal e do Brasil”.

No capítulo 13, o autor fala especificamente do regente (depois rei) D. João VI e descreve  algumas de suas esquisitices. Aqui, reproduzimos algumas delas.

“ O Príncipe regente e, depois de 1816, rei do Brasil e de Portugal, D. João tinha medo de siris, caranguejos e trovoadas. Durante as frequentes tempestades tropicais do Rio de Janeiro, refugiava-se  em seus aposentos na companhia do roupeiro predileto, Matias Antônio Lobato. Ali, com uma vela acesa, ambos faziam orações a santa Bárbara e são Jerônimo até que cessassem os trovões. Certa noite foi picado por um carrapato na fazenda de Santa Cruz, onde passava o verão. O ferimento inflamou e causou febre. Os médicos lhe recomendaram banho de mar. Como temia ser atacado por crustáceos, mandou construir uma caixa de madeira, dentro da qual era mergulhado nas águas da Praia do Caju, nas proximidades do Palácio de São Cristóvão. A caixa era uma banheira portátil, com dois varões transversais e furo laterais por onde a água do mar podia entrar. O rei permanecia ali dentro por alguns minutos, com a caixa imersa e sustentada por escravos para que o iodo marinho ajudasse a cicatrizar as feridas.

Esses mergulhos improvisados na Praia do Caju, a conselho médico são a única notícia que se tem de um banho de D. João nos treze anos em que permaneceu no Brasil. Quase todos os historiadores o descrevem como um homem desleixado com a higiene pessoal e avesso ao banho. “Era muito sujo, vício de resto muito comum a toda a família, a toda a nação”, afirmou Oliveira Martins. “Nem ele, nem D. Carlota, apesar de se odiarem, discrepavam na regra de não se lavarem.” A relutância da corte portuguesa contrastava com os costumes da colônia brasileira, onde os cuidados com o asseio pessoal chamava a atenção de quase todos os viajantes que por aqui passaram nessa época.”Apesar de certos hábitos que aproximam da vida selvagem os brasileiros da classe baixa, qualquer que seja sua raça, é para notar que todos eles são notavelmente cuidadosos com a limpeza do corpo”, escreveu o inglês Henry Koster, que morou em Recife entre 1809 e 1820."

Entre outras excentricidades do monarca, o autor se refere ao seu gosto pelos famosos franguinhos, que costumava levar na  algibeira de seu surrado casaco. Já vinham desossados e assados na manteiga e ele os devorava com avidez, forçando, naturalmente, seu intestino a funcionar em momentos impróprios. Mas o rei não se incomodava com o fato, pois se prevenia, levando consigo uma cadeirinha com um grande penico em baixo. No momento oportuno, ele descia da carruagem, baixava os calções e ali, diante de todos, fazia suas necessidades, mesmo que mulheres estivessem presentes.

Esse era o rei D. João VI, mas o escritor Laurentino Gomes conclui, afirmando a importância dele para o Brasil, com a abertura dos portos e o consequente desenvolvimento da economia brasileira,
transformando uma colônia esquecida, num reino e, depois, num país independente com a proclamação da independência por seu filho, D. Pedro I. Nascia o império brasileiro.

Laurentino Gomes escreveu uma trilogia extraordinária sobre a história brasileira, com os livros: 1808, 1822 e 1889. É leitura imperdível. Você encontra os livros nas boas livrarias. Esses livros foram escritos numa linguagem fácil e agradável, fruto de uma pesquisa imensa. O leitor encontra nesses livros aquela história brasileira que não lhe contaram na escola.

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quarta-feira, 10 de setembro de 2014

SEMINÁRIO SANTO ANTÔNIO, O MAIOR SEMINÁRIO DO BRASIL


             Resultado de imagem para seminário Santo Antônio Agudos









Quando vejo a majestosa construção do Seminário Santo Antônio, situado no município de Agudos, São Paulo,minha memória volta ao passado, exatamente ao ano de 1949, quando fui o primeiro seminarista a pisar no local, onde estava sendo construída a primeira ala do seminário, para acolher os alunos que ali chegariam no ano de 1950. Esses alunos eram originários do Seminário São Luís de Tolosa, Rio Negro, Paraná, cujas instalações já não comportavam o grande número de seminaristas, além das condições difíceis de funcionamento da instituição. Em tempo: no antigo prédio do Seminário São Luís de Tolosa funcionam hoje a prefeitura e diversas secretarias da cidade de Rio Negro, além da preservação de um imenso parque eco turístico, deixado pelos franciscanos.

Explico, agora, porque fui o primeiro seminarista a chegar ao seminário Santo Antônio, em Agudos. Naquele ano de 1949, eu, juntamente com meu colega José Egídio, fomos passar as férias de final do ano na cidade de Itápolis. Ficamos alojados nas dependências da paróquia, cujo pároco era frei Edvino. Ele, então, me convidou para acompanhá-lo até Agudos, pois queria conhecer o local da construção do novo seminário. Essa, a razão de ter sido eu o primeiro seminarista a pisar no local, cujas obras eram feitas em regime de urgência urgentíssima, para receber no início de 1950 a primeira turma de seminaristas, vinda de Rio Negro. A eles, coube a tarefa de desbravar o local. Fui designado por Frei Tadeu, o padre prefeito, para chefiar uma turma que, munida de foices e enxadas, tinha por missão limpar os arredores da construção e demarcar a área do cemitério, onde estão hoje sepultados alguns de meus antigos mestres.

Nessa primeira leva de seminaristas, estava a figura sempre lembrada de Irany Fracasso, hoje frei Anselmo. Acompanhamos, a época, com doloroso pesar, todo o processo de cegueira que o atingiu, tornando-se ele o primeiro cego a ser ordenado sacerdote no Brasil e o segundo no mundo. O outro, era um alemão. Detalhes dessa história pode ser lida neste blog, sob o título: 50 Anos de Luz nas Trevas.

As instalações do Seminário Santo Antônio foram construídas em estilo colonial moderno e hoje abriga o convento dos frades e pode abrigar mais de 300 seminaristas. Recebe também eventos de diversas categorias, tendo, para tanto, uma verdadeira estrutura hoteleira. Destacam-se na construção, a capela do padroeiro, Santo Antônio, um grande auditório com capacidade para 388 lugares, biblioteca, pequeno museu, piscina olímpica, ampla área verde em torno das dependências do educandário. O seminário foi construído no terreno de uma pequena fazenda, cuja produção ajuda na manutenção do seminário.
Em tempo:  o seminário Santo Antônio, hoje não tem mais nenhum aluno. Virou um grande hotel para eventos de cunho religioso. Sinal dos tempos. 

Foi professor deste seminário, Frei Evaristo Arns, depois cardeal de São Paulo, cujas atividades ficaram notórias no período dos governos militares. Aqui também estudou o teólogo Leonardo Boff, hoje conhecido em todo o Brasil pelos numerosos livros que escreveu.

O Seminário Santo Antônio pertence à Província da Imaculada Conceição dos frades franciscanos, cujos conventos estão espalhados pelos estados do Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e Santa Catarina. Além da catequese, eles se dedicam a numerosos projetos nas áreas de educação e assistência social. São donos também da mais antiga editora do pais, a Editora Vozes, situada na cidade de Petrópolis, Estado do Rio de Janeiro, fundada em 1901, sendo uma das maiores do Brasil.

Para maiores informações sobre o Seminário Santo Antônio:
Tel. (32) 3239-8600
E-mail: faleconosco@seminariosantoantoniojf.com.br

Assinado: Reinaldo Heitor Souza


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