terça-feira, 28 de abril de 2026

DÉCADA DE TRINTA: ELEIÇÃO QUE TEVE A VOTAÇÃO INTERROMPIDA POR ORDENS SUPERIORES

 


O texto que segue mostra um episódio real referente a uma eleição que  foi interrompida no povoado de Cerro Negro, por ordens superiores, isso na década de trinta, em plena gestão de Getúlio Vargas.

"Não me lembro do ano, nem do mês, mas sei que foi um dia de eleições e o local escolhido para as votações foi a escola onde meu pai era professor. Foi preparada uma urna e as pessoas chegavam para votar, mas tinham grande dificuldade em manipular as cédulas. Meu pai contava com pessoas do lugar para ajudá-lo na tarefa. Num canto da sala de aulas foi preparada a cabine, onde foi colocada a urna. Minha mãe arranjou uma colcha, que foi pendurada à entrada da mesma, para torná-la indevassável. Lá dentro era escuro e um lampião foi providenciado para as pessoas poderem depositar seu voto na urna. Depois do almoço, quando muita gente ainda estava na fila para votar, chegou um carro de Lages, com alguns homens. Eles chamaram meu pai a um canto da sala e falaram: 
       – É preciso interromper a votação. São ordens superiores. 
       – Mas o que faço com a urna e os votos nela depositados? 
       – Vamos deixá-la dentro da cabine. 
        A seguir, arrumaram dois sarrafos e os pregaram em forma de X sobre a colcha e lacraram o local. Depois, disseram a meu pai para ninguém ali entrar, até que o Governo liberasse o local. A guarda da urna ficava sob sua responsabilidade e se o lacre fosse rompido, eles saberiam que alguém tinha entrado na cabine. A notícia do cancelamento das eleições atraiu muitas pessoas para a escola, principalmente os políticos. Todos queriam uma explicação para o fato e os homens do Governo não estavam dispostos a dar. Embarcaram no carro e foram embora. Os políticos da região se dividiam em dois partidos: governo e oposição. Mas, os assuntos que os separavam não eram programas de governo, nem os interesses da população, mas suas disputas pessoais e familiares.

      Algumas semanas depois do cancelamento da eleição, minha família dormia tranquilamente, quando fomos acordados por batidas na janela do quarto de meus pais. O professor se levantou assustado, abriu a janela e percebeu três vultos a cavalo. Eles vestiam longas capas de feltro e grandes chapéus lhes encobriam os rostos. 
     – O que desejam os senhores, a esta hora da noite? – falou meu pai, muito preocupado. 
     – O senhor é o professor Heitor, não é mesmo? – falou o homem que estava mais próximo. 
     – Sim, este é o meu nome. 
     – Professor, precisamos de um pequeno favor de sua parte. 
     – Posso saber o tipo de favor? 
     – Precisamos que o senhor nos deixe ver a urna guardada aí na sua escola. 
     – Não posso fazer isso, pois a cabine onde ela está foi lacrada pelas autoridades.       
    – Não tem importância. Arrombamos o lacre e depois colocamos outro. Ninguém vai saber da nossa visita. Nós só queremos dar uma olhada. É pura curiosidade. Precisamos apenas saber quem estava ganhando a eleição. 
    – Infelizmente, não posso atender aos desejos dos senhores. Se ao menos eu pudesse saber quem são os cavalheiros? – disse o professor tremendo de medo. 
    – No momento, professor, isso não tem a menor importância. Não queremos usar a força para entrar na escola e assustar a sua família. Mas nós voltaremos. 
      Os enigmáticos personagens viraram as rédeas de suas montarias e se retiraram lentamente do local, enquanto meus pais ficavam apavorados. No dia seguinte, o professor procurou logo cedo algumas pessoas importantes do lugar e elas resolveram mandar imediatamente um emissário a Lages com uma carta para as autoridades com o relato da tentativa de invasão da escola pelos misteriosos cavaleiros. Uma semana depois, dois policiais chegaram a Cerro Negro e se instalaram num galpão localizado ao fundo da escola. Enquanto aguardavam a proteção policial, foram contratados dois homens que passaram a vigiar a escola durante a noite. Os misteriosos cavaleiros nunca mais voltaram e ninguém conseguiu identificá-los. As pessoas achavam que devia ser gente do lugar. Depois de algumas semanas, os policiais foram substituídos por um destacamento do exército, também instalado no galpão nos fundos da escola, mas, agora, o motivo não era só a segurança da urna, mas problemas relativos à segurança nacional, segundo informaram a meu pai, pois o país vivia em estado de emergência com rebeliões a explodirem nos diversos Estados contra o governo de Getúlio Vargas. Esse destacamento do exército, depois ficou aquartelado num prédio no centro do povoado e trouxe um pouco de movimentação para a pacata Cerro Negro. 

Quanto à eleição interrompida, até hoje não sei se era federal, estadual ou municipal. Só sei que foi interrompida e, durante meses, ficou lá no canto da sala de aulas a tal cabine indevassável, despertando a minha curiosidade infantil. Arrastando-me pelo chão, penetrei no misterioso compartimento, onde só encontrei a urna e um lampião apagado. Ali não tinha nada importante e eu fiquei decepcionado. 
       A presença dos soldados do exército no galpão nos fundos da escola foi para mim uma festa, pois eu vivia à volta deles a observar suas armas e seus uniformes. Eles improvisaram um acampamento, onde dormiam e comiam. Suas camas eram formadas por algumas camadas de capim sobre as quais colocavam cobertores, cobrindo-se com as capas de feltro. Eles mesmos preparavam a comida do rancho num fogo de chão, com as panelas penduradas em varas, apoiadas em duas forquilhas. De resto, eles nada tinham para fazer. Passavam o dia conversando ou jogando cartas. Quando eu me aproximava, eles me davam atenção: ensinavam-me a marchar, a dar meia volta volver, a bater continência, a fazer apresentação de armas. Isso era feito com um fuzil de verdade, o qual eu mal conseguia erguer, mas isso me dava a sensação de participar de um exercício militar. Eu saía dali muito orgulhoso. Quando minha mãe soube que punham em minhas mãos uma arma, foi falar com o sargento responsável e este lhe assegurou que a arma não tinha munição e falou para ela não se preocupar, porque tinham todo o cuidado com seu filho. Mas, desse dia em diante, fui proibido de frequentar a caserna, além do que, os soldados logo se mudaram para um casarão do outro lado da vila, onde ficaram aquartelados."

(Texto extraído do livro MENINO TROPEIRO do autor deste blog. Para comprar o livro, acesse: atendimento@clubedeautores.com.br).