segunda-feira, 5 de outubro de 2026

MENINO DE 12 ANOS, EM NOITE DE CHUVA, TEVE QUE CAMINHAR 5 QUILÔMETROS PARA BUSCAR UM MÉDICO PARA SALVAR SUA MÃE

 


O trecho que segue faz parte do livro MENINO TROPEIRO, do autor deste blog, e mostra como era a vida no interior, naqueles velhos tempos, na década de trinta, no planalto catarinense. Para comprar o livro, agora em promoção, veja detalhes no final desta postagem.

 "E aconteceu novamente o inevitável. Minha mãe ficou grávida de mais um filho. Era o de número cinco, excluindo aquele que ela perdera dois anos antes. Desta vez, a gravidez era em condições  difíceis,  pois  ela  ficava a  maior parte do dia sozinha em casa com os dois filhos pequenos, enquanto minha irmã e eu íamos para a escola com meu pai. João, o empregado, fora embora,  porque  também  precisava ajudar sua família nos trabalhos da lavoura. Se ela tivesse um problema repentino, quem iria socorrê-la? Nos dias em que não estava bem, eu faltava a aula para ficar em casa de plantão. Meu pai passou a considerar que a mudança para o sítio tinha trazido mais males do que benefícios. Agora, sem a ajuda de João, não tinha mais ninguém para trabalhar na lavoura e o mato tomava conta das plantações.

No dia 7 de maio do ano de 1942, minha mãe teve uma menina, a quem deu o nome de Maria Aparecida, em homenagem à padroeira do Brasil, de quem era muito devota. Quem realizou o parto foi a moradora de um sítio, distante uns dois quilômetros de nossa casa. Nesse dia, eu fiquei de plantão, com um cavalo preparado para chamar a parteira. Quando minha mãe sentiu as primeiras dores, parti a galope atrás da boa senhora e, duas horas depois, ela já estava a postos, momento em que meu pai também chegava da escola. Graças a Deus, tudo correu bem.

Mas, depois do parto, dona Lina não era mais a mesma pessoa. Tinha problemas intestinais, passava por crises graves de saúde. Uma noite, ela estava tão mal que meu pai me chamou e perguntou se eu tinha coragem de ir até Anita Garibaldi e chamar o dr. De Negri.

 Eu disse que sim e me pus logo a caminho. Estava muito escuro e caía uma chuva fininha, além do frio, pois era o mês de julho, em pleno inverno. Pelo caminho eu pensava se o médico iria atender ao chamado, depois daquela confusão na casa de Silvério entre minha mãe e d. Talita. As famílias não se falavam há muito tempo.

Ao chegar em Anita Garibaldi, fui até a casa do médico, mas ele não estava. D. Talita, sua mulher, me atendeu  bem,  mas  informou  que  ele tinha ido visitar um doente e ainda não retornara, mas era esperado em casa naquela noite. Fiquei desesperado e voltei para casa onde o estado de saúde de minha mãe se agravara.

Depois de algum tempo de hesitação, meu pai resolveu retornar comigo à casa do doutor e, quando lá chegamos, graças a Deus ele ali se encontrava. Imediatamente, pegou sua maleta e nos acompanhou pelos caminhos tortuosos até nossa casa. Numa descida, cujo chão estava escorregadio, ele tropeçou num pequeno arbusto e caiu. Embora, todo arranhado, disse não ter acontecido nada e avançamos rapidamente. Ao chegarmos em casa, encontramos minha mãe ainda com muitas dores na barriga. O médico a examinou e depois lhe deu uma injeção para dormir por um longo período. Já era dia claro e dr. Giovanni continuava de plantão, pois estava preocupado com o estado da paciente. Reunido com meu pai na pequena sala, ele falou:

– Professor, o estado de saúde de sua mulher é muito preocupante. É melhor todos voltarem a residir no povoado, pois aqui nesses matos podemos fazer muito pouco  por ela.

– Eu já tinha pensado nisso, mas a Lina é teimosa e não quer abandonar suas plantações.

– É melhor ficar sem as plantações do que sem a vida. Aqui, fica difícil lhe dar assistência médica. O sr. tem o exemplo de hoje.

– Vou falar com o Silvério, pois o casarão onde morávamos lá na vila, continua vazio. Vou lhe pedir permissão para voltarmos, imediatamente, para lá.

– Faça isso, professor. É para o bem de toda a família, pode acreditar.

Apesar do problema com a vaca, Silvério não  fez nenhuma objeção e, algumas semanas depois, a família voltava ao ninho antigo. Era a quarta mudança que fazíamos no pequeno povoado naquele esquema de vida de ciganos. Deixamos para trás a casa do sítio, fria e úmida e voltamos para o casarão bem confortável, com todos os cômodos, com forro de madeira e as paredes calafetadas com ripas pregadas sobre a junção das tábuas, para impedir a entrada do vento e do frio. A grande vantagem, agora, é que estávamos a duzentos metros da escola e dona Lina contava com a assistência de todos a qualquer hora.

A rotina voltou a tomar conta do povoado. A minha única saudade do sítio era a abundância de lenha. Bastava sair da casa que, por todos os lados, havia galhos secos em profusão. No sítio também havia fartura de pinhão, mas era preciso disputá-los com os porcos, soltos no mato pelos criadores, no inverno, quando havia abundância do fruto. Durante esse período, o vento debulhava as pinhas e os suínos, espertos, dormiam debaixo dos pinheiros e quando o dia clareava, o alimento estava ao alcance de seus dentes. Quem chegasse mais tarde, ficava a ver navios."

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 MENINO TROPEIRO - é a biografia da infância do autor, filho de um professor primário, que dava aulas em povoados do Planalto Catarinense. Aulas para 4 turmas, simultaneamente, com a maioria dos alunos vindos das propriedades agrícolas. Eles não tinham condução, como os alunos atuais. Vinham a pé, na escola não havia refeições e, à tarde voltavam para casa e pegavam uma enxada para ajudar os pais no trabalho das lavouras. Eram outros tempos. 

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