"E aconteceu
novamente o inevitável. Minha mãe ficou grávida de mais um filho. Era o de
número cinco, excluindo aquele que ela perdera dois anos antes. Desta vez, a
gravidez era em condições difíceis, pois
ela ficava a maior parte do dia sozinha em casa com os
dois filhos pequenos, enquanto minha irmã e eu íamos para a escola com meu pai.
João, o empregado, fora embora,
porque também precisava ajudar sua família nos trabalhos da
lavoura. Se ela tivesse um problema repentino, quem iria socorrê-la? Nos dias
em que não estava bem, eu faltava a aula para ficar em casa de plantão. Meu pai
passou a considerar que a mudança para o sítio tinha trazido mais males do que
benefícios. Agora, sem a ajuda de João, não tinha mais ninguém para trabalhar
na lavoura e o mato tomava conta das plantações.
No
dia 7 de maio do ano de 1942, minha mãe teve uma menina, a quem deu o nome de
Maria Aparecida, em homenagem à padroeira do Brasil, de quem era muito devota.
Quem realizou o parto foi a moradora de um sítio,
distante uns dois quilômetros de nossa casa. Nesse dia, eu fiquei de plantão,
com um cavalo preparado para chamar a parteira. Quando minha mãe sentiu as
primeiras dores, parti a galope atrás da boa senhora e, duas horas depois, ela
já estava a postos, momento em que meu pai também chegava da escola. Graças a
Deus, tudo correu bem.
Mas, depois do parto, dona Lina não era mais a mesma pessoa. Tinha
problemas intestinais, passava por crises graves de saúde. Uma noite, ela
estava tão mal que meu pai me chamou e perguntou se eu tinha coragem de ir até
Anita Garibaldi e chamar o dr. De Negri.
Eu disse que sim e me pus
logo a caminho. Estava muito escuro e caía uma chuva fininha, além do frio,
pois era o mês de julho, em pleno inverno. Pelo caminho eu pensava se o médico
iria atender ao chamado, depois daquela confusão na casa de Silvério entre
minha mãe e d. Talita. As famílias não se falavam há muito tempo.
Ao chegar em Anita Garibaldi, fui até a casa do médico, mas ele
não estava. D. Talita, sua mulher, me atendeu
bem, mas informou
que ele tinha ido visitar um
doente e ainda não retornara, mas era esperado em casa naquela noite. Fiquei
desesperado e voltei para casa onde o estado de saúde de minha mãe se agravara.
Depois de algum tempo de hesitação, meu pai resolveu retornar
comigo à casa do doutor e, quando lá chegamos, graças a Deus ele ali se
encontrava. Imediatamente, pegou sua maleta e nos acompanhou pelos caminhos
tortuosos até nossa casa. Numa descida, cujo chão estava escorregadio, ele
tropeçou num pequeno arbusto e caiu. Embora, todo arranhado, disse não ter
acontecido nada e avançamos rapidamente. Ao chegarmos em casa, encontramos
minha mãe ainda com muitas dores na barriga. O médico a examinou e depois lhe
deu uma injeção para dormir por um longo período. Já era dia claro e dr.
Giovanni continuava de plantão, pois estava preocupado com o estado da
paciente. Reunido com meu pai na pequena sala, ele falou:
–
Professor, o estado de saúde de sua mulher é muito preocupante. É melhor todos
voltarem a residir no povoado, pois aqui nesses matos podemos fazer muito
pouco por ela.
–
Eu já tinha pensado nisso, mas a Lina é teimosa e não quer abandonar suas
plantações.
– É
melhor ficar sem as plantações do que sem a vida. Aqui, fica difícil lhe dar
assistência médica. O sr. tem o exemplo de hoje.
–
Vou falar com o Silvério, pois o casarão onde morávamos lá na vila, continua
vazio. Vou lhe pedir permissão para voltarmos, imediatamente, para lá.
– Faça isso, professor. É para o bem de toda a família, pode
acreditar.
Apesar
do problema com a vaca, Silvério não fez
nenhuma objeção e, algumas semanas depois, a família voltava ao ninho antigo. Era a quarta mudança que fazíamos no pequeno
povoado naquele esquema de vida de ciganos. Deixamos para trás a casa do sítio,
fria e úmida e voltamos para o casarão bem confortável, com todos os cômodos, com forro de madeira e as paredes calafetadas com ripas pregadas sobre a junção
das tábuas, para impedir a entrada do vento e do frio. A grande vantagem,
agora, é que estávamos a duzentos metros da escola e dona Lina contava com a
assistência de todos a qualquer hora.
A
rotina voltou a tomar conta do povoado. A minha única saudade do sítio era a
abundância de lenha. Bastava sair da casa que, por todos os lados, havia galhos
secos em profusão. No sítio também havia fartura de pinhão,
mas era preciso disputá-los com os porcos, soltos no mato pelos criadores, no
inverno, quando havia abundância do fruto. Durante esse período, o vento debulhava
as pinhas e os suínos, espertos, dormiam debaixo dos pinheiros e quando o dia
clareava, o alimento estava ao alcance de seus dentes. Quem chegasse mais
tarde, ficava a ver navios."
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MENINO TROPEIRO - é a biografia da infância do autor, filho de um professor primário, que dava aulas em povoados do Planalto Catarinense. Aulas para 4 turmas, simultaneamente, com a maioria dos alunos vindos das propriedades agrícolas. Eles não tinham condução, como os alunos atuais. Vinham a pé, na escola não havia refeições e, à tarde voltavam para casa e pegavam uma enxada para ajudar os pais no trabalho das lavouras. Eram outros tempos.
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