Scripta e Virtual

O blog da cultura e do conhecimento. Inicio com trecho do poema de Gonçalves Dias, Y- Juca Pirama: - Assim, o Timbira, coberto de glória/ Guardava a memória/ Do moço guerreiro, do velho tupi./ E à noite nas tabas,/ se alguém duvidava/ Do que ele contava/ Dizia prudente:“Meninos, eu vi”. Eu também vi muita coisa e vou contar, neste blog, para vocês. Por favor, faça seus comentários e torne-se um seguidor de meu blog. E-mail do autor: vsom01@yahoo.com.br

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

UM FATO REAL QUE ACONTECEU NAS DEPENDÊNCIAS DO SEMINÁRIO SÃO LUIS DE TOLOSA - NA DÉCADA DE 40




A seguir, irei publicar o capítulo 10 de meu livro AS TÔRRES DAS TRÊS VIRTUDES, capítulo esse que narra um episódio verídico,  acontecido nas dependências do Seminário São Luis de Tolosa, Rio Negro, Paraná, no ano de 1947. O autor deste blog foi testemunha desse episódio, pois, à época, estudava no São Luis de Tolosa.

"Depois da Páscoa, os alunos do São Luis de Tolosa retornaram às aulas e começou a rotina de oração, estudo e trabalho. Mas, para Frei Álvaro, estava pendente o assunto greve da limpeza, que exigia um desfecho, para que o fato não se repetisse. Na surdina, ele resolveu investigar e chamou a sua cela um por um os participantes da greve, pois queria os nomes dos cabeças. Os alunos diziam desconhecer quem insuflara o movimento, até que um deles, com medo de ser expulso do seminário, resolveu colaborar. Seu nome era Renato. Depois de algumas perguntas do padre prefeito, ele desembuchou tudo e explicou que Júlio César achava um absurdo os pais dos alunos pagarem mensalidades, enquanto eles eram obrigados a lavar chão, varrer corredores, limpar latrinas. Isso era contra a dignidade dos futuros sacerdotes e Deus certamente não queria isso. O Prefeito perguntou a Renato se ele participaria de uma acareação com Júlio César e o rapaz disse que não via problema. O padre prefeito podia convocá-los, pois ele confirmaria tudo. Frei Álvaro mandou chamar o acusado, para ouvi-lo na frente de seu delator. Com os olhos fixos no suspeito, falou:

– Está aqui um verdadeiro seminarista, o seu colega Renato, que faz graves acusações a tua pessoa, meu caro Júlio César. Diz que insuflaste teus colegas a cometerem um grave ato de indisciplina ou seja, a paralisação da limpeza da casa, um serviço que, há décadas, é feito por grupos de alunos, em rodízio. Quero os nomes dos responsáveis para puni-los com o devido rigor.

– Em primeiro lugar, padre prefeito – disse Júlio César –  eu estranho que neste educandário se estimule a delação entre colegas. Não existe nada pior do que o chamado dedo duro. Mas se o sr. quiser saber, eu não liderei greve nenhuma. Apenas participei do movimento, por achá-lo justo.

         – Foste tu – retrucou Renato – que reuniste os alunos da limpeza e falaste que era um absurdo os pais pagarem mensalidades e os filhos serem obrigados a limpar as latrinas do seminário. Afirmaste que, para esse serviço, deviam ser contratados empregados.

          – Sim – retrucou Júlio – até acho que essa tua ideia faz sentido.

– A ideia não foi minha. Foi tua.

– Penso que não  chegaremos à conclusão  alguma – completou Júlio César, voltando-se para o padre prefeito –, pois o sr. tem a palavra dele contra a minha. Seria bom ouvir outros alunos para sua decisão.

– Já ouvi quase todos e eles negam a tua participação. Vou ouvir os depoimentos que faltam e, depois, voltarei ao assunto. Agora, ambos podem se retirar.

Na saída, Renato procurou entabular  conversa  com o colega, para lhe explicar as razões de sua denúncia, mas Júlio César não lhe deu a mínima atenção. Estava furioso com a traição praticada pelo colega e em pouco tempo todos os participantes da greve estavam cientes do acontecido. Falava-se que a decisão a ser tomada pela direção do educandário seria a expulsão dos líderes, já que mandar todo mundo para casa ficaria muito complicado.

Numa reunião com seu grupo, Júlio César enfatizou a necessidade de punição para o traidor, Renato, pois se deixassem passar o assunto em brancas nuvens, ninguém poderia mais tomar qualquer atitude contra as injustiças praticadas no seminário.

– Que tipo de punição? – perguntou Nivaldo, um dos mais exaltados.

– Ainda não sei – respondeu Júlio César –, talvez uma boa surra, um grande susto, ou algo que o faça pensar duas vezes antes de cometer uma nova traição.

– Acho que um susto – acrescentou Antônio, outro participante do grupo – poderia ser uma boa lição, pois surra é violência.

–  Que tipo de susto? – perguntou Nivaldo.

– Renato é metido a valentão. Um dia desses alguém falava num grupo de alunos que, ao passar pela porta do cemitério, à noite, quando fazia uma corrida, tinha visto algo estranho, como um vulto se esgueirando por entre as árvores e Renato se prontificou a liderar uma expedição à procura do fantasma.

– Acho o assunto bem apropriado – disse Júlio César. – Vamos espalhar novos boatos a respeito e depois organizar um grupo de caça-fantasmas, sob a liderança de Renato. Aí, lhe preparamos uma grande surpresa.

         Em seguida, o grupo  de  Júlio  César  iniciou o pla-nejamento de todas as etapas da operação. Enquanto uns cuidavam do fantasma, outros incentivavam a organização de uma expedição noturna à procura da aparição e Renato foi um dos primeiros voluntários a se inscrever. A data escolhida foi um  sábado,  quando  a vigilância do padre prefeito era menos rigorosa. O grupo, que participaria da expedição, era formado por Renato e mais três alunos da turma dos rebeldes, liderados por Júlio César, enquanto Nivaldo se encarregaria de preparar a surpresa.

Sábado, no final da tarde, se iniciaram os preparativos. Nivaldo conseguiu alguns lençóis na rouparia e uma corda bem comprida. O caminho até o cemitério seguia através de uma grande alameda, passava pela gruta de Lurdes e chegava, então, ao pequeno campo santo, fazia uma curva e retornava através de uma floresta de imbuias, pinheiros e cedros e findava junto ao campo de esportes, nos fundos dos prédios do seminário. Era um circuito através do qual muitos alunos costumavam correr durante a prática de esportes. 

Júlio César e Nivaldo escolheram para cenário do espetáculo, uma grande imbuia, cujos galhos se projetavam sobre a estrada a uma altura de sete metros. Pegaram  um  pedaço de  madeira,  que  tinham trazido, e  prenderam  os lençóis de maneira a formarem a figura de um boneco de braços abertos. Fixaram um arame nas extremidades do pedaço  de  madeira,  na forma  de um triângulo, em cujo vértice amarraram uma das pontas da corda, que foi atirada por sobre um dos galhos da árvore, enquanto a outra extremidade era trazida até o solo. Fizeram o teste e ficaram satisfeitos, pois, ao ser puxada a corda, os lençóis presos à madeira se erguiam e faziam um movimento ondulatório provocado pela brisa da tarde.

– Isso, à noite, fará um grande estrago – disse Júlio César –, mas devemos trazer uma lanterna para iluminar o fantasma.

Os dois conspiradores arriaram os lençóis e os esconderam enrolados sob um galho da imbuia. Deixaram a ponta da corda amarrada ao tronco da árvore.

Às 21 horas, quando os alunos do seminário se preparavam para dormir, o grupo de caça-fantasmas se reuniu no início da alameda, que conduzia à gruta de Nossa Senhora de Lurdes e, depois, ao cemitério. Vinham armados de porretes e combinaram o caminho a ser percorrido e a estratégia a seguir, no caso de encontrarem alguma alma penada, às portas do cemitério.

Enquanto faziam o percurso, Júlio César relatou um fato ocorrido na França. Um rapaz ficou preso uma noite numa igreja do interior, quando foi surpreendido pela entrada de um padre, muito pálido, todo paramentado, que se dirigiu ao altar, para celebrar missa, pedindo ao jovem que  fizesse  às  vezes  de ajudante. O jovem atendeu e, no final da missa, o padre agradeceu e falou que tinha voltado do outro mundo para cumprir uma promessa que fizera em vida, de rezar uma missa pelas almas do purgatório, promessa que não cumprira. Vinha todas as noites até a igreja para rezar a missa prometida, mas não podia fazê-lo por falta de um coroinha, que o ajudasse na cerimônia. Concluíu que, paga a promessa, sua alma poderia descansar em paz e não teria mais as outras almas a sua volta para lhe cobrar a dívida. Agradeceu a ajuda do jovem e desapareceu na porta da sacristia, momento em que a igreja foi tomada por um forte cheiro de incenso.

A história narrada por Júlio César deixou todos impressionados e Renato  já  não  demonstrava  mais tanta valentia. Passaram em frente ao cemitério e nem se detiveram. Lançaram apenas um olhar furtivo em direção ao campo santo. A seguir, o caminho dava uma volta, quando os nossos heróis penetraram na floresta, agora completamente às escuras, pois a fraca luminosidade noturna ali não penetrava. Ouviam apenas os ruídos de pequenos animais e pássaros, que fugiam assustados com a chegada dos intrusos.

Todos caminhavam em silêncio, com Júlio César e Renato à frente do grupo. Júlio César levava uma lanterna e, quando se aproximou do ponto onde se encontrava Nivaldo, fez a mesma piscar duas vezes, pois era esse o sinal esperado pelo companheiro escondido atrás da grande árvore. Nesse momento, Nivaldo começou a puxar a corda, enquanto uma figura diáfana se erguia, lentamente, iluminada pela lanterna. Júlio César estancou os passos, repentinamente, e gritou para os companheiros:

– Vejam! Tem algo estranho ali, que sobe em direção à copa das árvores.

Todos pararam repentinamente e Renato ficou estático, como uma estátua de pedra. Júlio César dirigiu a luz da lanterna para o rosto do companheiro, onde o terror estava visivelmente estampado. Preocupado que algo mais grave ocorresse, um dos jovens gritou para que todos voltassem e se pôs a correr. Renato, como que  saído  de  um pesadelo, deu meia-volta e começou a descer a estrada em desabalada carreira, enquanto os companheiros ficavam para trás. Quando chegou à curva que ia dar no cemitério, ele não se deu conta e continuou em frente, embrenhando-se no mato, quando escorregou e caíu, ralando-se nas pedras.

– Socorro! Socorro! – gritava. – Me ajudem, pelo amor de Deus. Estou ferido, gravemente ferido.

Os companheiros se aproximaram do jovem, literalmente apavorado, e o trouxeram novamente para a estrada, quando, sob a luz da lanterna, viram o estrago que o susto causara ao valentão. Tinha braços e pernas lanhados e uma expressão de pavor estampada no semblante. Com dificuldade, ele falou:

– O couro da minha cabeça está gelado. Estou mal, muito mal. Por favor, não me deixem... vamos embora desse lugar maldito. Eu vi aquela coisa, que subia, enquanto olhava para mim. Vocês não viram?...

– Sim, vimos – disseram os outros em coro.

O grupo retornou às pressas pelo caminho antes percorrido, preocupados que algo de mais grave acontecesse ao companheiro, que era amparado por dois membros da equipe, enquanto confabulavam, sem que Renato percebesse. Por decisão unânime, resolveram contar-lhe a verdade, pois o rapaz poderia sofrer um trauma mental irreversível e aí, as coisas iam ficar pretas para os conspiradores.

Ao chegarem ao seminário, encontraram Nivaldo, que também retornava, e pediram que ele contasse ao companheiro toda a verdade, pois a aventura poderia ter desdobramentos desagradáveis. Nivaldo se aproximou de Renato e com um sorriso disse:

– Então, companheiro, te borraste todo por causa de um lençol subindo por entre as árvores?

– O que eu vi foi uma alma penada ...fiquei com o couro cabeludo gelado e ainda me sinto mal. Não vou conseguir dormir esta noite.

Apesar da confirmação de todo o grupo de que aquilo não passava de uma brincadeira, Renato estava firme em suas convicções. Ele tinha visto algo terrível, talvez a alma de alguém enterrado no cemitério ...

– No cemitério – disse Nivaldo – só tem uns frades velhinhos, que morreram  com fama  de   santidade,   e o  corpo de um aluno, que  morreu há vários anos, afogado, quando tomava banho no rio.

– Talvez seja a alma desse aluno – disse Renato. – Ela pode vagar por aí à procura de descanso. Eu já ouvi falar dele. Soube que, ao mergulhar, fincou a cabeça  na  ponta  de um  galho de árvore, que estava no fundo do açude. Foi uma tragédia, que abalou todo o seminário. Acho que devemos pedir uma missa ao padre prefeito pela alma do nosso colega.

De nada adiantaram as explicações. Chegaram a mostrar ao jovem apavorado os  lençóis  usados   no episódio,  mas   ele  dizia  que queriam apenas acalmá-lo. Ninguém vira o que ele viu, pois se encontrava à frente do grupo.

No dia seguinte, o assunto rapidamente se espalhou pelo colégio e chegou também aos ouvidos do padre prefeito. Todos cercavam Renato à procura de detalhes da misteriosa aparição que, para muitos, era motivo de chacota, já para outros, de tristes lembranças, principalmente para aqueles mais antigos, que tinham participado do acidente no açude, quando morreu afogado um seminarista do segundo ano. Sua família morava no interior de Santa Catarina e, face aos problemas de comunicação, os pais só foram informados uma semana depois do ocorrido, quando o corpo do menino já tinha sido sepultado. A direção do seminário ficou numa situação embaraçosa, quando teve que explicar à família do menino o que acontecera, certamente um episódio, fruto de terrível fatalidade.

Embora o índice de acidentes fosse muito pequeno diante do grande número de seminaristas, daquela data em diante, os dirigentes do São Luis de Tolosa passaram a tomar medidas preventivas, para que fatos semelhantes não se repetissem."

 ______________________________________




AS TORRES DAS TRÊS VIRTUDES- livro dividido em duas partes. A primeira se passa num seminário, com a narrativa de fatos vivenciados pelo autor em sua juventude, mostrando como se desenvolvia a vida de um jovem, baseada no estudo, no trabalho e na oração, além das atividades esportivas. A segunda parte é vivida pelo herói da narrativa, na fazenda de seu pai, onde impera a corrupção, a violência e a lei da Winchester. 

 Para comprar o livro, acesse: vsom01@yahoo.com.br e receba o texto em seu computador (e-boock) pelo preço de CR 35,00. Indique o e-mail para onde deve ser enviado cada livro.











 








e a lei da Winchester. 

Postado por R.H.Souza às 08:29
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R.H.Souza
Estudei durante 11 anos em diversos seminários da Ordem Franciscana, onde concluí o curso de filosofia. Ao sair do seminário, ingressei na Faculdade Nacional de Direito (antiga Universidade do Brasil). Durante os cinco anos de faculdade, fui professor de latim em cursos para o vestibular de direito, letras e filosofia. Depois de formado, trabalhei em diversas empresas multi-nacionais (General Electric, Shell e Gillette do Brasil)nas quais atuei nas áreas de propaganda e promoção de vendas, editando publicações de cunho comercial. A seguir, fundei uma produtora audiovisual, na qual, durante 33 anos, escrevi roteiros para audiovisual e vídeo nas áreas de treinamento e relações públicas. Produzi programas que foram exibidos em feiras internacionais na Alemanha, Argentina, Espanha e Chile. Editei o livro Brasil Sim, em 4 idiomas, considerado, à época, o melhor trabalho de promoção do País no exterior. Sou autor dos seguintes livros: Operação Kaaba, O Filho de Anita, As Torres das Três Virtudes, Menino Tropeiro e Vender é Preciso. Resido, atualmente, na cidade do Rio de Janeiro
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